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Elemento fulcral em ordem à contínua e progressiva transformação de consciência, tornando perceptível a importância nuclear da diaconia para a transparência e a eficácia do testemunho cristão global, é que a comunidade cristã se torne cada vez mais escola de comunhão e de sensibilização para o serviço fraterno. Nesse sentido apontam-se quatro aspectos:

 

  1. Espaço de comunhão

Antes de mais, importa fazer das nossas comunidades cristãs espaço de experiência e de vivência da comunhão solidária, lugar de aprendizagem da disponibilidade para a doação e o serviço.

Há neste aspecto, obviamente, uma tarefa elementar de que a família não pode ser dispensada. Mas a comunidade cristã, nos seus diversos níveis e expressões de realização, adquire aqui um papel determinante, qualificativo da sua identidade. “Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio se quisermos ser fiéis aos desígnios de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo”. Há por isso que promover – “uma espiritualidade de comunhão, elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se plasma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes de pastoral, onde se constroem as famílias e as comunidades”.

Sem dúvida que o grande contributo que a Igreja pode prestar à sociedade passa, antes de mais, por esta capacitação humana e espiritual dos crentes para a disponibilidade servicial, para a atitude de entrega e doação, para a solidariedade sacrificada, para a sensibilidade atenta às necessidades alheias, para o sentido preciso daquilo que é prioritário em cada situação.

 

  1. Relacionamento aberto

Neste processo de consciencialização da responsabilidade diacónica que brota da fé, é fundamental que a comunidade cristã se entenda e se realize, explicita e coerentemente, como “comunidade fraterna” e “zona de humanidade”, como lugar de aceitação acolhedora de uns pelos outros, como espaço de autêntica realização de valores humanos fundamentais. A comunidade cristã não pode deixar de ter aqui um dos seus objetivos e mesma comunidade. há preocupações prioritários, fazendo com que o clima de vivência interna corresponda minimamente àquilo que se proclama e se celebra dentro da mesma comunidade. Há que estimular um ambiente de relacionamento aberto, de acolhimento e disponibilidade para ir ao encontro do outro, de partilha e ajuda mútuas. É indispensável fomentar atitudes de verdadeira humanidade nos comportamentos internos comunitários, que têm de ser marcados pela tolerância e pelo sentido elementar da dignidade humana. Importa saber ir ao encontro do concreto da vida das pessoas, estimulando a sensibilidade dos cristãos para as diversas situações e tarefas que se apresentam no horizonte como interpelação à capacidade de serviço da comunidade cristã.

É de importância vital que a comunidade cristã descubra que só através do serviço e do amor fraternos, da capacidade de solicitude para com as pessoas em situação difícil, encontra a plena significação e a mais visível eficácia como sinal do amor de Deus para com os homens.

 

c)Escola de Diaconia

em última análise, a comunidade cristã só pode ser escola de comunhão e de diaconia, se o amor marcar toda a ação pastoral, se a atitude de serviço for o prisma pelo qual é vista e delineada toda a ação da Igreja, se se acreditar mesmo que a comunidade eclesial é construída pelo amor fraterno. Ressalta assim como nuclear a resposta à pergunta em que medida o serviço às pessoas marca efetivamente as grandes orientações, as decisões estruturais, as prioridades do nosso agir pastoral. A consciência de que a diaconia é lei fundamental de todo o agir eclesial tem de transparecer tanto em modos de comportamento como em sinais estruturais. Nesta ordem de ideias, é preocupante verificar-se a dificuldade, até mesmo alguma incapacidade que tem havido em configurar ministérios laicais neste domínio, dando formalização institucional às expressões várias de serviço aos outros e ao mundo a partir de uma atitude crente. A dimensão servicial da Igreja não pode deixar de passar pelo desenvolvimento de ministérios também neste âmbito, sob pena de se falhar gravemente em termos de eficácia, de sinalização profética e de formação dos próprios fiéis.

 

d)a comunidade cristã é atravessada pelas tensões que podem advir, e advêm inevitavelmente, do caráter pluriforme que a diaconia cristã necessariamente tem na sua preocupação de ser serviço efetivo aos homens em todas as situações e necessidades. À pluralidade das pessoas e dos carismas, das formas individuais de vivência da fé, juntam-se a diversidade de circunstâncias em que o serviço cristão se exerce, a avaliação diferente das prioridades e dos meios de ação, a própria possibilidade e necessidade do agir profético livre.

A comunidade cristã é escola de comunhão e de diaconia não por cima ou para além dessa pluralidade e das eventuais tensões que ela comporta, mas no meio dessa pluralidade e das tensões que dela decorrem. Uma espiritualidade de comunhão não assenta num idealismo abstrato ou num monolitismo estéril, mas afirma-se e apura-se pela capacidade de suportar e integrar essas tensões e dificuldades, sabendo que o mesmo Espírito Santo, que é fonte de comunhão e de unidade, suscita também diversos caminhos na fidelidade aos dons recebidos e na busca de respostas às interpelações das pessoas.

A diversidade não está, pois, contra a comunhão, mas é situação normal e necessária de vivência da comunhão, interpelando a saber valorizar o diverso de nós como algo complementar da nossa visão, do nosso testemunho, do nosso serviço. A autêntica comunhão eclesial há-de ser fonte e esteio que suporta a pluralidade possível de formas e caminhos, na abertura ao diálogo e à interpelação mútua, na certeza de que, nas questões da concreta diaconia, o critério verdadeiramente importante é saber se, como discípulo de Jesus Cristo, amamos verdadeiramente o homem e a mulher de que somos chamados a tornar-nos próximos.

 

 

Autor: J. E. Borges de Pinho

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A COMUNIDADE CRISTÃ COMO ESCOLA DE DIACONIA

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