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Presidente do Comitê da Unesco, Augustin Holl, participa de encontro na Dom Helder e quer aprender e trocar ideias com intelectuais e artistas brasileiros em um diálogo aberto.

Augustin Holl, arqueólogo camaronês radicado na França, participa de encontro da Unesco sobre a história africana.

Augustin Holl, arqueólogo camaronês radicado na França, participa de encontro da Unesco sobre a história africana. (UFMG/Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes
Repórter Dom Total

Augustin Holl é um curioso incurável ou como já disse “um caminhante sem Estado”. Camaronês de nascimento, estudou história e arqueologia em Paris, mas percorreu vários continentes cruzando informações para suas pesquisas – países da África Ocidental, Nova York, o Deserto de Negev, em Israel, o Saara.

Professor da Universidade de Paris Ouest Nanterre – La Défense (Paris) e da Universidade Cheikh-Anta Diop (China), atravessa o Atlântico com frequência para dar palestras e conferências. A maioria de seus trabalhos também cruza fronteiras, neste caso, de áreas do conhecimento, aplicando a chamada transversalidade ao abordar temas como as origens da metalurgia e da alimentação na África, ou as condições de vida da população negra de Nova York a partir do cemitério de escravos na metrópole.

Desta segunda-feira (25) a quarta-feira, Holl preside o Encontro do Comitê Internacional Científico para o Volume IX da Coleção de História Geral da África (HGA), da Unesco. O evento acontece no Auditório Dom Helder/EMGE e terá sessões abertas ao público nesta terça (26).

Nesta entrevista exclusiva ao Dom Total, o professor comenta a importância da coleção, as dificuldade e inovações no trabalho de produção do nono volume da HGA, a necessidade de se aproximar dos jovens através da arte e afirma que “o obscurantismo e a ignorância são os inimigos, não as pessoas”.

ENTREVISTA AUGUSTIN HOLL

Quais foram as principais dificuldades na publicação do Volume IX de GHA, desde que as alterações no continente estão acelerando nas últimas décadas?

O projeto inicial era essencialmente produzir um volume sobre a história da diáspora africana no mundo, mas a ideia evoluiu até que se tornaram três volumes em vez de um. Isso já é uma dica a respeito das dificuldades teóricas e científicas, que é “como escolher e selecionar os temas mais precisos?”. Uma delas é ter que atualizar o conhecimento reunido a respeito dos africanos no mundo inteiro, incluindo o passado distante e as origens da humanidade. Como é o caso de todos os projetos ambiciosos, alguém tem que construir espírito de equipe, o que leva tempo. Mas, uma vez que isso ocorre, o clima de trabalho muda completamente e torna-se prazer. Fazer história sobre o presente é sempre um grande desafio. Você está escrevendo a história dos eventos no momento em que eles ocorrem sem a distância do tempo. É um desafio, mas nossos autores fizeram exatamente isso.

Existe alguma diferença desse volume em relação aos anteriores?

Sim, com certeza. A diversidade e o equilíbrio entre gêneros têm sido variáveis muito importantes do nosso trabalho e, claro, da Unesco também. Nessa perspectiva, esse volume não tem comparação com os volumes anteriores. Nós tivemos muita atenção com a diversidade geográfica dos nossos autores.

Quais são as mais recentes descobertas e pesquisas sobre a África e as diásporas incluídas no volume?

A pesquisa sobre a diáspora africana foi esmagadoramente dominada pela perspectiva atlântica. Há um desenvolvimento extraordinário nos estudos históricos sobre a presença da cultura africana no Oceano Índico, que tem raízes profundas. Isso é um acréscimo significativo à intricada complexidade da história de pessoas de ascendência africana no continente euroasiático, no passado, bem como o presente. É uma das contribuições-chave desse projeto.

Como o projeto e a publicação da coleção contribuíram para a mudar as ideias e conceitos em relação à história africana e quais os principais conceitos introduzidos durante a feitura deste nono volume?

É difícil resumir as conquistas desse projeto em apenas algumas palavras. No entanto, o conceito-chave que deu forma ao nosso projeto que é o de “África Global”. Não o inventamos, pois já tinha sido formulado por um colega historiador da Universidade de Howard. Mas o projeto conferiu a ele uma dimensão universal, ressaltando a fluidez, no movimento de idas e vindas, sem qualquer redução a uma única essência. O projeto explorou a importância e o sentido histórico da criatividade artística como uma janela para a experiência de pessoas de ascendência africana. É a multiplicidade de visões e cruzamentos de pontos de vista a respeito da história dos africanos e dos afro-descendentes em todo o mundo que colocam este projeto em uma categoria especial.

Quais são as perspectivas para o Volume X da HGA?

Boa pergunta. Esperamos que os três novos volumes sejam amplamente distribuídos mundialmente em todas as instituições de ensino para formar as interpretações das gerações futuras. A educação é a única opção para ajudar a tornar este mundo um lugar melhor. O obscurantismo e a ignorância são os inimigos, não as pessoas. Nossa esperança é alcançar os jovens e os menos jovens do mundo como um todo. A prioridade, é claro, são os países africanos e os de ascendência africana.

Quais são os principais temas que serão discutidos em Belo Horizonte?

A agenda do encontro em Belo Horizonte está cheia. Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecer ao Brasil por ter lançado essa iniciativa e apoiado esse projeto, aos autores brasileiros que participaram desse trabalho e fizeram um trabalho fantástico. Em nome do Comitê Científico Internacional, gostaria de agradecê-los do fundo do nosso coração. Em segundo lugar, temos que revisar as introduções escritas pelos coordenadores das diferentes seções de cada volume, e sugerir melhorias e correções, se necessário. E, em terceiro lugar, esperamos aprender e trocar ideias com intelectuais e artistas brasileiros em um diálogo aberto.

Redação Dom Total

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‘A educação é a única opção para tornar este mundo um lugar melhor’

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