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Diante da morte, temos um grande inimigo e um grande amigo

Entre mais de 400 mil mortes por Covid-19, nenhuma provocou uma comoção nacional como a do ator Paulo Gustavo. Representa a face mais trágica da segunda onda da pandemia no Brasil: a morte de pessoas relativamente jovens, no auge da capacidade realizadora, que deixam filhos pequenos. Gente que ainda teria muito para viver, para dar e receber do mundo. Além disso, pelo temperamento e pelo ofício, representava a alegria da vida, o lado simpático do humor, o amigo que todos querem ver próximo.

Não assisto muito a televisão ou cinema, nem acompanho a vida das celebridades. Soube quem era Paulo Gustavo pelas notícias divulgadas durante sua doença. Pouco posso dizer sobre ele além disso, que está sendo amplamente divulgado na mídia. Acrescento apenas um detalhe, que me chamou a atenção. Na comunidade cristã, enquanto alguns insistiram em criticá-lo por sua união homoafetiva, outros fizeram questão de exaltá-lo por seu apoio a obras sociais católicas. A realidade é sempre mais complexa do que nossos esquemas – e esse, sem dúvida, é o desejo de Deus.

A empatia precede os valores

O luto que se espalhou pelo Brasil, com a morte de Paulo Gustavo, fala muito de nossa necessidade de dar nome, ver o rosto, identificar os amados daquele que morreu. Repetimos incessantemente que não somos números, mas precisamos dessa personalização das vítimas para recuperar o sentido da tragédia pessoal. Com o avanço da pandemia em 2021, é cada vez mais difícil encontrar alguém que não tenha um amigo ou um parente com perfil semelhante ao dele. Contudo, cada um de nós vive a sua dor num momento diferente, com um grupo específico. A força do drama da pessoa emblemática está justamente em sincronizar o sentimento coletivo, criando essa empatia que conecta as pessoas.

Essa percepção da dor do outro é uma das grandes forças construtoras da vida em sociedade e da descoberta que, ao longo da vida, fazemos de nossa própria humanidade. Psicopatas e sociopatas se caracterizam, entre outros aspectos, por sua incapacidade de ter empatia, de perceber o que acontece com as demais pessoas. Estão fechados em seu mundo e, nessa condição, não conseguem desenvolver nem mesmo sua própria humanidade.

A historiadora Lynn Hunt, no clássico A invenção dos direitos humanos: uma história (São Paulo: Companhia das Letras, 2009) considera que o desenvolvimento da empatia, enquanto sentimento social, nos séculos XVII e XVIII, e da percepção da própria dignidade estão na base da construção de sociedades democráticas, que procuram reconhecer e respeitar os direitos humanos. A empatia precede o reconhecimento dos valores morais e políticos, não no sentido de ser mais importante, mas no sentido de que ela é um dos fatores que concorrem para uma justa compreensão desses valores. Sem empatia, os valores se tornam formais e moralistas, podendo ser facilmente manipuláveis por quem tem o poder. Sem valores sólidos, a empatia se torna sentimentalista e instintiva, também se prestando facilmente à manipulação.

Nesse sentido, o luto compartilhado, experimentado com a morte de Paulo Gustavo, independentemente da opinião que cada um possa ter dele ou da política nacional, é um bem para a sociedade brasileira no enfrentamento à pandemia.

O luto e o mistério da vida

A morte sempre traz dor aos vivos. A falta e a saudade, o não dito e o não feito, podem – quando muito – ser mitigados pelo tempo, mas nunca evitados. Quem quisesse eliminar a dor da morte precisaria amputar a própria humanidade, se deixar transformar em criatura embrutecida ou máquina insensível.

Contudo, a dor da morte desvela a nós o mistério do mundo. Por algum tempo, é como se o véu do templo se rasgasse e pudéssemos adentrar o recinto sagrado onde o humano pode encontrar o divino e apreender o sentido último da realidade. É uma experiência sofrida, mas representa um bem possível. Como enfrentamos a morte, nossa e das pessoas que amamos, depende de como vivemos a vida. Por outro lado, o aprendizado propiciado pela morte nos torna mais sábios e, paradoxalmente, nos permite ser mais felizes no resto da vida – mesmo que a falta e a dor não desapareçam.

Diante da morte, temos um grande inimigo e um grande amigo. O inimigo é o absurdo, a falta de sentido, que se abate sobre nós particularmente diante do falecimento dos jovens, das mortes súbitas ou que poderiam ser evitadas. O absurdo da morte nos dá a impressão de que tudo é vão, relativiza nossas realizações e nos enche de medo da própria vida. O amigo é, justamente, a negação do absurdo: o sentido das coisas, que só o amor pode nos dar. A vida ganha sentido quando se torna um gesto de amor, a morte ganha sentido quando nos descobrimos amados por toda a eternidade. Quem não descobriu esses dois aspectos da existência, dificilmente viverá a morte e o luto de forma serena.

Em tempos de pandemia, quando o absurdo da morte parece ser ainda maior, se torna ainda mais urgente descobrir o sentido e a grandeza do amor.

Aleteia

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A empatia e o luto que revelam nossa humanidade

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