0 Flares 0 Flares ×

1 – A palavra ‘pandemia’ entrou definitivamente no nosso dicionário. Não apenas por estarmos inevitavelmente mergulhados numa, mas principalmente pelas marcas e cicatrizes que vai legar à vida de cada um de nós e à sociedade. E não se pense que estamos simplesmente a experimentar uma pandemia de Covid-19. Este momento tão singular que vivemos confrontou-nos com as outras pandemias que já abalavam a sociedade, mas que se tornaram mais evidentes perante um contexto que jamais havíamos experimentado.

2 –Na Arquidiocese de Braga foi notícia esta semana a iniciativa da Misericórdia de Barcelos em acolher cinco pessoas abandonadas em hospitais[1]. Este ato, que poderia ser encarado como evidência da missão específica das Misericórdias – dado observar a 4.ª Obra de Misericórdia corporal e a 4.ª Obra de Misericórdia Espiritual – não pode deixar-nos indiferentes enquanto cidadãos de uma sociedade desenvolvida e, mais especificamente, enquanto cristãos. Como é possível existirem pessoas absolutamente sozinhas? Poderá parecer-nos cenário improvável ou inconcebível, mas existem, talvez bem perto de nós, pessoas completamente isoladas da família, dos amigos e da própria sociedade.

3 – A solidão poderá parecer uma improbabilidade, todavia poderá tornar-se real um dia. Acontecimentos inesperados, decisões e cisões mal discernidas ou atitudes desajustadas podem acabar por nos marginalizar dos demais. De repente, um cenário que nos aparecia como distante, torna-se cada vez mais concreto. O sociólogo polaco Zygmunt Bauman recorda-nos que “estamos todos numa multidão e numa solidão ao mesmo tempo”[2]. Uma frase aparentemente contraditória, mas que nos elucida sobre as formas hodiernas de nos relacionarmos uns com os outros.

4 – A solidão aparece como a grande ameaça do nosso tempo, aparecendo com especial clarividência neste tempo excecional que vivemos, mas que efetivamente já se manifestava. Num mundo cada vez mais conectado, em que as redes digitais parecem fomentar contactos e proximidades, se torna cada vez mais evidente esta ameaça que já abala a sociedade. Esta solidão que nos forma deriva de uma sociedade em que o individualismo se sobrepõe ao coletivo. As linhas de apoio psicológico que se multiplicaram durante a pandemia expõem as outras pandemias que padecemos. Existe o medo de não voltar a ver a família, o medo da morte e até o receio de sair à rua[3].

5 – Há escassos meses, o Papa Francisco, no seu livro “Voltemos a sonhar” (título original “Ritorniamo a sognare”), elaborado já sob o espectro da pandemia de covid-19, reflete sobre a solidão, confessando que os momentos de solidão que enfrentou durante a sua vida lhe ofereceram “mais tolerância, compreensão, capacidade de perdoar”. E, além dos ganhos pessoais, lhe concedeu “uma nova empatia para com os fracos e indefesos” [4]. A solidão, portanto, não deve impelir-nos numa predisposição orgânica para a angústia e o desespero, mas pode oferecer-nos um renovado horizonte sobre a nossa existência. O perdão é sempre o primeiro passo para a mudança. Perdoar quem nos deixou sozinhos. Perdoar as decisões mal tomadas. Sublimar o passado que já foi, aceitando as consequências que daí advieram, procurando um futuro diferente.

6 – Esta evidência poderá, através das palavras, parecer de simples concretização, mas não é. De facto, não fomos criados para sermos sozinhos, contudo vivemos muitas vezes como se assim fosse. É isso que a humanidade tão bem tem sabido fazer, apesar dos exageros. Eis que o Cristianismo aparece como a solução para esta pandemia que nos ameaça. Santa Teresa de Ávila diz-nos que “quem ama faz sempre comunidade”, não podendo sentir-se “nunca sozinho”. E assim é. A atenção para com os outros, a abolição do orgulho ferido, uma reta intenção perante os outros e os acontecimentos podem realizar pequenos milagres nas nossas vidas.

7 – Numa sociedade mais solidária, mais humana, mais cristã, a solidão não poderá ser mais do que uma improbabilidade. O cenário que tanto nos amedronta e que se transformou em realidade objetiva para tantos nos nossos dias, pode ser uma fatídica certeza para cada um de nós. Façamos, pois, a nossa parte para que esta ameaça não se transforme numa evidência irreversível e funesta.

[1] https://www.diocese-braga.pt/noticia/1/27613, visto em 06/02/2021.
[2] https://www.fronteiras.com/artigos/zygmunt-bauman-la-solidao-e-a-grande-ameaca, visto em 08/02/2021.
[3] https://www.publico.pt/2020/04/04/local/noticia/lado-linha-medo-doenca-solidao-perder-ama-1910593, visto em 08/02/2021.
[4] https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-11/papa-francisco-libro-tres-solidoes-minha-vida.html, visto em 06/02/2021.

 

 

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/

Autor: Rui Ferreira, Arquidiocese de Braga

0 Flares 0 Flares ×
A grande ameaça

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*