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Santo Agostinho teve a humildade de reconhecer que algumas de suas palavras foram imprecisas ou imprudentes. Não é o que muitos deveriam fazer nas redes sociais?

A palavra mágica para a era da internet é “conteúdo”. Quer seja através da produção de um podcast, de um site ou de uma conta no Twitter, o segredo para chamar a atenção da audiência é produzir novos materiais com agilidade e constância.

Além disso, cada postagem que fazemos no Facebook, Instagram, no Twitter e similares é armazenada na misteriosa “nuvem”, em alguma versão arquivada da página da web, pronta para ser recuperada no momento adequado.

Como sabemos que nossos posts serão disseminados e gravados para sempre, ficamos ansiosos para mantê-los, não importa o que aconteça – eles fazem parte de nossa “marca”, e não podemos voltar atrás com eles.

Dessa forma, vivemos em uma sociedade em que os nossos pensamentos mais fugazes e intemperantes são gravados em espécies de pedras (ou silício, conforme o caso). E Santo Agostinho  nos dá um exemplo de uma abordagem de comunicação mais desapegada e humilde.

Agostinho de Hipona, além de um dos grandes santos e doutores da Igreja, foi também um de seus escritores mais volumosos. As cartas, comentários e tratados de Santo Agostinho enchem várias prateleiras quando impressos e encadernados. (Na verdade, de acordo com a Enciclopédia de Filosofia de Stanford, “a produção literária de Agostinho ultrapassa em quantidade a obra preservada de quase todos os outros escritores antigos”.) Depois de produzir tamanha quantidade de material, Santo Agostinho reconsiderou algumas de suas posições.

Alguns anos antes de sua morte, o venerável bispo de Hipona publicou “Retratações”, uma coleção de reflexões sobre as suas obras.

Embora sejamos tentados a pensar que o autor faça rejeições sobre seus pensamentos anteriores, não é esse o objetivo do livro, que, ao contrário tenta explicar e reafirmar o que outrora dissera de forma sistemática.

“Retratações”, na verdade, consiste em uma lista das obras de Santo Agostinho e, como escreve o estudioso James J. O’Donnell, “para cada obra listada, ele diz algo sobre as circunstâncias de composição e publicação, além de acrescentar correções e emendas que, na sua velhice, ele achou necessário. ”

Muitas áreas que receberam sua atenção estavam relacionadas às suas disputas com os pelagianos, que acreditavam que a graça era desnecessária para a salvação. Assim, vemos Santo Agostinho refinar seus pensamentos sobre assuntos que incluem livre arbítrio, graça, predestinação, pecado original e mérito. Ele também corrige alguns de seus comentários sobre as Escrituras, observando que passou a compreender melhor a Bíblia em sua velhice.

Traçando um paralelo com os tempos atuais, podemos dizer que vivemos uma era marcada pela defensiva e por pouca humildade. As pessoas ignoram as críticas e rebatem até mesmo suas piores posições, em uma tentativa desesperada de manter seu orgulho. Santo Agostinho, conhecido em sua  época como uma das grandes mentes pensantes, reconhece que suas palavras foram, às vezes, imprecisas, destemperadas ou imprudentes. Não apenas isso, mas ele dedicou um tempo para trabalhar seus textos sistematicamente e acrescentar qualquer coisa que considerasse esclarecedora.

Estamos menos sujeitos ao erro do que o grande Agostinho? Nossas palavras e ações estão acima de qualquer reprovação? Estamos tão preocupados com a forma como somos percebidos que esquecemos que uma das características mais admiráveis ​​é a humildade? Que é a verdade que nos liberta?

Tentamos nos agarrar, ou melhor, nossa imagem, com tanta força que ela se estilhaça em nossas mãos. Só quando nos soltamos, quando nos importamos pouco o suficiente com nossa imagem, podemos dizer: “Sinto muito, estava errado, não deveria ter dito isso”, que podemos ser verdadeiramente livres, verdadeiramente ser nós mesmos . A verdadeira humildade é a essência da santidade. Talvez se fôssemos mais humildes online, a internet, o mundo, seriam um lugar melhor. Rezemos a Santo Agostinho para que possamos segamos seu exemplo.

Aleteia

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A lição de Santo Agostinho para a era da internet

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