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Reflexão sobre o Evangelho do II Domingo de Páscoa (Jo 20,19-31)

Mensagem de Dom Jeová Elias
Dom Jeová Elias*
Meus queridos amigos e minhas queridas amigas,
Estamos vivenciando ainda a alegria da ressurreição de Jesus, fato mais importante da nossa história, que não pode esgotar-se na celebração de um dia somente. Esta alegria, portanto, é estendida pela Igreja durante 8 dias, e o tempo pascal estende-se por 50 dias. Quanta alegria a ser celebrada! Quanta esperança a ser recuperada! Quanto amor a ser alimentado!
O Evangelho deste segundo domingo de Páscoa apresenta o relato das duas aparições de Jesus Cristo aos discípulos reunidos: a primeira sem a presença de Tomé e a segunda com a presença dele.
A ressurreição é a reabilitação de Jesus Cristo, é ailuminação da sua palavra, do seu projeto. À luzda ressurreição, podemos compreender e assumirmelhor a história passada, presente e futura. Compreendemos, sobretudo à luz do Espírito enviado pelo ressuscitado, o ensinamento de Jesus que, então, não era entendido; percebemos com mais lucidez o momento presente e somos encorajados a ser fiéis ao seu projeto, na busca da construção de um mundo melhor e de um maravilhoso futuro definitivo, que não deve ser aguardado como um caos.
A ressurreição também dá sentido ao tão incompreendido mistério da cruz: ressurreição e cruz não são coisas separadas, mas associadas,uma vem depois da outra. No texto deste domingo, isso se evidencia nas marcas das chagas que o ressuscitado carrega no seu corpo. Oressuscitado é o mesmo crucificado por amor; o vencedor é aquele que parecia ter sido derrotado pela experiência terrível, cruel e injusta da condenação à morte de cruz.
O evangelista João inicia o seu texto situando a cena: é a tarde de domingo, considerado já outro dia para os judeus, mas ainda o mesmo dia da ressurreição para os cristãos, do novo tempo inaugurado pela vitória de Jesus sobre a morte. A referência à tarde de domingo retrata o costume cristão de celebrar a Eucaristia neste dia e hora, menção repetida na segunda aparição com a presença de Tomé.
A alusão ao grupo dos discípulos que se encontravam assustados e trancados depois da morte de Jesus indica um aspecto negativo: o medo; mas a presença do ressuscitado no meio deles destrói o medo e rompe todas as barreiras. Agora nada poderá reter o corpo do Senhor: nenhum sepulcro, nenhuma porta, nenhum espaço, nenhum tempo. Ele é Senhor do tempo, do espaço e da história. Ele renova nossa esperança.
A paz é o primeiro fruto concedido pelo ressuscitado: “A paz esteja convosco” (v. 19b).Esta saudação se repete por duas vezes (v. 21 e 26). Aquele que traz no seu corpo as marcas da violência não manifesta um sentimento de ódio e vingança, mas uma mensagem de paz, como plenitude dos dons messiânicos.
São João valoriza o testemunho dos Apóstolos que vêem o senhor ressuscitado e transmitem essa verdade. A ressurreição é testemunhada por aqueles que viram, acolheram, conviveram com o Cristo e morreram por acreditar nessa verdade. Aatitude de recusa de Tomé, que não estava com ogrupo e necessita de sinais, de tocar as chagas, éuma atitude de tantos que não acreditam. Mesmo sendo do grupo dos Apóstolos, ele não é colocado em superioridade aos outros cristãos. Há muita gente que necessita de sinais para acreditar, de tocar nas chagas.
O Evangelho de hoje destaca a importância da comunidade. Ela nos ajuda a acreditar, a viver e testemunhar a fé. Juntos somos mais fortes, juntos nos apoiamos e nos revigoramos para transformar a realidade. Sozinho é muito difícil! A nossa fé não se reduz a uma experiência intimista, a uma questão de consciência particular, tem uma dimensão comunitária. Ela é fruto do amor do ressuscitado, recebido do testemunho dos Apóstolos, que morreram por crerem na ressurreição.
O grupo dos Apóstolos, contemplado com a presença do ressuscitado, é enviado em missão. Jesus sopra sobre eles o Espírito Santo e os envia. Diferente da versão de Lucas nos Atos dos Apóstolos, em João o Pentecostes não ocorre 50 dias depois da Páscoa, mas no mesmo dia da Ressurreição. Com o sopro do Espírito Santo, símbolo da nova criação humana, Jesus envia os Apóstolos como portadores do perdão. Eles deverão oferecer o perdão de Deus aos pecadores dispostos, bem como reter os pecados daqueles endurecidos em suas atitudes hostis e na rejeição ao amor oferecido. Contudo, a prática de Jesus Cristo foi de generosidade na oferta do perdão. Ele nunca se recusou a perdoar. Em todos os seus gestos e parábolas narradas nos Evangelhos, Ele é magnânimo no perdão e na defesa da imagem de um Pai cheio de compaixão: a parábola do pai misericordioso, o encontro com a mulher adúltera,o encontro com a mulher que unge os seus péscom o perfume e as lágrimas, o encontro com o paralítico… Mesmo ao morrer na cruz, oferece o perdão a um ladrão e aos seus algozes.
A dispensa do perdão determinada por Jesus desafia-nos nessa cultura tendente à perseguiçãocontra as pessoas consideradas pecadoras, especialmente por serem diferentes. A Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano nos convidou à superação da intolerância, a derrubar os muros de ódio e a construir pontes de união. Infelizmente, há gente que, em nome da pureza da fé, em nome de Deus, nutre o ódio no coração, agride quem julga ter outros valores. Postura que contradiz o Evangelho e o ensinamento magisterial do Papa Francisco, que nos convida a ser uma Igreja dialogal, que não somente ensina, mas também aprende com o diferente; que não é manipuladora, nem dona da verdade, mas sua servidora. Que “deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam se sentir acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho” (EvangeliiGaudium n. 114).
As chagas de Jesus Cristo são destacadas no Evangelho de hoje. Tomé descobre o ressuscitado,tocando as suas chagas. O documento de Aparecida nos convida a descobrir o rosto deJesus Cristo nos mais sofridos, nos chagados da nossa história latino-americana (Cf. DAp n. 32). Deixemos que a dor do outro nos interpele, humanize, e possibilite o exercício da misericórdia.
Renovo os votos de uma Feliz e abençoada Páscoa, extensivos a todos os seus familiares e pessoas amigas!
Desça sobre você, sobre sua família e seus amigos, a bênção de Deus misericordioso: Pai, Filho e Espírito Santo.
*Bispo de Goiás-GO

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A ressurreição ilumina o mistério da cruz

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