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Pe. Geovane Saraiva*

Jamais devemos hesitar em meio a ocasos e cruzes da vida, nós, criaturas humanas, em nossos deslocamentos, no modo de pensar e de agir e nas contradições, com nossa realidade física e existencial, em prantos, lamentos e lágrimas: é o peregrinar humano rumo àquele êxodo final. Que nossa mística e nossa força motivadora estejam em Jesus – eucarístico, pão da vida, pão descido do céu –, evidentemente numa atenta dinâmica e enérgica retidão, no sentido de se dar uma resposta à gratuidade de Deus. Volto-me mais uma vez ao espírito de Santo Agostinho, que foi levado pelo amor à eternidade e à verdade, cada dia e passo a passo, externando sempre o sentimento amoroso, do âmago do coração, aspirado na acentuada avidez de se conquistar e usufruir daquela divina e celestial cidade[1], cuja suprema autoridade é Jesus de Nazaré.

O desafio é viver em conformidade com a vontade de Deus, que, segundo o apóstolo Paulo, é a celebração da Ceia do Senhor, a proclamação do mistério da morte de Cristo, na qual esse mistério se torna eficaz e satisfatoriamente compreensível aos que procuram haurir dessa fonte, usando de todos os meios, inseridos verdadeiramente na celebração do banquete do Senhor[2]. Ao participarem do referido banquete, entram os fiéis em comunhão com o corpo e sangue de Cristo, fazendo com que a comunidade, totalmente envolvida pelo mesmo mistério, se transforme em partícipe do sacrifício, tendo um só corpo e uma só alma como resultado para consigo mesmo.

Que fique claro que a Ceia do Senhor é o elemento a causar o maior júbilo, essencialmente escatológico e imorredouro, claramente presente, longe de qualquer dúvida, desde a origem como princípio da vida cristã da humanidade. Usa-se o termo “banquete messiânico” em alusão a uma grande, lúcida e viva experiência de Deus, tendo como centro a palavra do Senhor, que é vida. A Ceia se confunde com a Páscoa do Senhor, vida nova a mover a humanidade, o Espírito Santo que nos anima, numa comunhão íntima da criatura humana com Deus: criador, salvador e santificador. A eucaristia e os demais sacramentos, ou mistérios, vividos na liturgia da Igreja, de um modo contemplativo, querem, pela vontade de Deus, penetrar, progressivamente, na realidade da vida humana e no mundo.

O Filho quer fazer de nós verdadeiros adoradores do Pai (cf. Jo 4, 24), filhos de Deus participantes de sua filiação única (cf. 2Pd 1, 4). O Espírito que Jesus enviou do Pai para sua Igreja inspira, estimula, sustenta todo esse projeto de vida. É preciso mudar o nosso conceito de oração, e em primeiro lugar escutar o que Deus tem a nos dizer[3]; colocar o nosso querer no querer de Deus; também nossa vontade na vontade de Deus; e ainda nossa liberdade na liberdade de Deus. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

 

[1] RAMOS, Manfredo. A Ideia de Estado na Doutrina Ético-política de S. Agostinho. Ep. 155, n. 1, pp. 296 e 311.

[2] VIER, Frederico. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, 1977, p. 260.

[3] LORSCHEIDER, Aloísio. Cf. Variações sobre a Oração Cristã, Franciscanos do RS, p. 89.

 

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A vontade de Deus na vontade humana

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