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Por Barbara Câmara , 

Em Fortaleza, o fenômeno vem crescendo ao longo dos últimos cinco anos, segundo psicóloga da Sociedade Psicanalítica de Fortaleza (SPFOR). O engessamento da grade curricular é um dos fatores agravantes

O intervalo compreendido entre os 6 e os 14 anos de idade é marcado por descobertas. No âmbito escolar, é a partir desse momento que despertam o interesse e a atenção às notas e, consequentemente, a comparação de desempenho com os colegas. Nesse período, determinadas atitudes dos estudantes e das próprias escolas podem abrir espaço para um tipo peculiar de bullying: o intelectivo.

Considerado um tipo de violência, o comportamento já foi, inclusive, discutido durante o Fórum Violência Contra a Infância, da Sociedade Psicanalítica de Fortaleza (SPFOR), através do Núcleo de Psicanálise da Infância e Adolescência (Nupia). Ao contrário do bullying ‘agressivo’, responsável por popularizar o termo, o intelectivo é motivado por determinações da instituição de ensino em que o aluno se encontra, como o engessamento da grade curricular e grandes exigências. Na avaliação da psicóloga Silvana Barros, psicanalista membro da SPFOR, o aluno que não alcança as expectativas sofre.

“Esse aluno diferente, que não consegue boas notas ou que apresenta autoexigência muito grande, também é um aluno que está sendo violentado pela escola. Mas essa violência da escola representa um sintoma social, de uma sociedade que quer exigir das crianças cada vez mais cedo. Existem mães de crianças de 4 e 5 anos que ficam preocupadas se a criança já não estiver pré-alfabetizada, quando a alfabetização deveria ser aos 7”.

Desequilíbrio

A psicanalista revela que, ao longo da última década, os tempos de brincar livre e de criatividade têm diminuído nas escolas, causando um desequilíbrio entre o aprendizado e o ‘ser-criança’.

O problema não está na aprendizagem formal nem nos conteúdos ensinados, segundo ela, mas sim na necessidade de aprendê-los em um período de tempo específico, ainda com pouca idade, fazendo com que a criança tenha que desenvolver habilidades muito cedo.

“As escolas padronizam muito. Se não aprender o conteúdo em determinada idade e do jeito exato, não é bom. Isso é o bullying intelectivo. As grandes escolas aqui têm quadro de honra, para onde você vai e recebe medalhas caso tire boas notas, como 9 e 10. Nem todas as crianças conseguem, e as que conseguem podem se fechar em grupinhos. Isso é um tipo de bullying”, diz Silvana.

Tal comportamento enquadra-se como “violência narcísica”, que tem crescido em número de casos e alcançou a infância. A atitude é identificada em pessoas que desejam conviver apenas com aqueles que consideram ‘iguais’, não tolerando ideias ou personalidades diferentes, e pode não ser identificada tão facilmente pelas escolas. “A violência não é só a agressividade manifesta de bater e de brigar. Isso tem diminuído, porque controlam esse tipo de indisciplina, mas essa violência silenciosa chega mais ao consultório”.

Vínculos

Nos últimos cinco anos, segundo a psicanalista, vem crescendo o número de casos de crianças com sofrimento psicológico e baixa autoestima. Para evitar o incentivo a esse tipo de bullying, recomenda-se o fortalecimento de vínculos entre os estudantes, através de atividades cooperativas em que haja uma competição mais saudável, como esportes e desafios de criatividade ou shows de talentos. A alternativa cria uma compensação para crianças que não vão tão bem nas matérias.

O incentivo aos professores também é apontado como um aspecto importante no combate ao bullying. “Quando um professor é amigo, ele consegue fazer com que o aluno se interesse pela disciplina”, ressalta Silvana Barros.

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Bullying intelectivo é o mais comum no Ensino Fundamental

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