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Jesus o Bom Pastor (Jo 10,11-18)
Celebramos neste IV domingo da Páscoa o dia do Bom Pastor e a jornada mundial de oração pelas vocações.

Mensagem de Dom Jeová EliasDom Jeová Elias*

A figura do pastor, mesmo que inusual na nossa cultura, é recorrente na Bíblia, desde o Primeiro Testamento, onde Deus se apresenta como o pastor do seu povo, que cuida das ovelhas mais debilitadas, a ponto de carregá-las nos ombros. O belíssimo Salmo 23 apresenta Deus como um pastor que tudo providencia para que as suas ovelhas vivam bem, e as protege de todos os perigos.
Para manifestar o seu pastoreio, Deus constituiu algumas pessoas para cuidar do seu povo. Contudo, muitas dessas autoridades traíram o chamado divino. Ao invés de cuidar do povo, exploraram-no, conforme denunciam os profetas Jeremias, Ezequiel e Zacarias. Por isso, o próprio Deus irá cuidar do seu povo. Ele o faz na pessoa de Jesus e dos seus discípulos missionários, que deverão empenhar-se no cuidado da vida dos seus filhos e filhas.
As palavras que mais se destacam no Evangelho deste IV domingo da Páscoa são: pastor, que aparece 5 vezes, sendo três delas com o adjetivo bom; ovelhas aparece 7 vezes, além dos pronomes referentes; conhecer aparece 4 vezes e vida, que aparece também 4 vezes.
Jesus se apresenta como pastor. Mas a figura do pastor não era entendida segundo as ilustrações de hoje. A imagem simpática apresentada por Jesus era exceção. Os pastores, conforme Joaquim Jeremias, estavam elencados entre as profissões desprezíveis. Eles não gozavam de boa reputação. Eram tidos, na maioria das vezes, como pessoas desonestas por pastorearem seus rebanhos em pastagens alheias e extorquirem a renda do rebanho. Muitas das lideranças políticas e religiosas da época mereciam esse rótulo. Certamente de hoje também. A figura do pastor aplicada a Jesus já se encontra retratada em diversas catacumbas dos primeiros séculos do Cristianismo. Significa que era valorizada pelos primeiros cristãos.
Jesus diz ser o bom pastor (v. 11 e 14). Ele é diferente dos mercenários que exploravam o rebanho e fugiam, abandonando as ovelhas diante de um perigo iminente. Seu pastoreio é comprometido. Ele é o bom pastor porque conhece as suas ovelhas e as defende a ponto de dar a própria vida por elas. Conhecer, na perspectiva bíblica, é mais do que ter ciência, saber a identidade; conhecer é ter relação amorosa. Jesus compara o conhecimento recíproco com as ovelhas ao conhecimento entre Ele e o Pai.
O pastoreio de Jesus não aprisiona as ovelhas num único curral. Aqui está presente a crítica às estruturas da religião da época, e de hoje, que aprisionam as pessoas e não oferecem a verdadeira vida. O pastoreio de Jesus é universal, não se reduz simplesmente a um redil: Ele é pastor de todos, veio trazer a vida para todos.
A missão de pastor que Jesus se atribui comporta a oferta da vida. Quatro vezes se destaca a palavra vida, além dos dois pronomes que a retratam. A preocupação de Jesus é com a vida do seu rebanho. Ele veio para que todos tenham vida (cf. Jo 10,10). Sacrifica a própria vida na defesa da vida do seu povo. Os mais sofridos e debilitados têm um lugar especial no seu coração: os enfermos, os marginalizados, os famintos, os pecadores…
O bom pastor não tem outra pretensão senão a vida das suas ovelhas. Para isso, Ele vai comprometer a sua própria vida. Essa ideia bonita do Evangelho de hoje é destacadainúmeras vezes nas pregações e discursos do papa Francisco: contra o carreirismo, contra o clericalismo, contra a autorreferencialidade na igreja, contra os pastores que muitas vezes usam da função, nos diversos âmbitos, não só no religioso, mas nas funções sócio-políticas, em proveito próprio ou dos seus grupos, e contra os mercenários da fé.
Como discípulos missionários de Jesus Cristo, devemos assumir a preocupação com a vida, sobretudo das pessoas mais fragilizadas. “Uma religião que não plenifica a vida das pessoas ou que não as faz mais felizes não é digna do ser humano”. Aos bispos brasileiros na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, o papa Francisco lembrava que pastoral é o exercício da maternidade da Igreja, que não somente gera, mas alimenta, acompanha o crescimento, corrige e conduz pela mão. O Papa destacava também aos bispos a necessidade da Igreja redescobrir suas entranhas maternas de misericórdia, inserindo-se num mundo de feridos.
Essa preocupação com a dignidade da vida dos mais frágeis, sobressai no Documento de Aparecida, onde a palavra vida aparece 631 vezes. Também é central na mensagem do papa Francisco. Nos diversos discursos e pregações proferidos nas suas Viagens Apostólicas aos dez países da América Latina e do Caribe, a palavra vida foi pronunciada cerca de 850 vezes. Para Francisco, a vida humana é sagrada e deve ser defendida em qualquer situação. Mas os privilegiados são os pobres e os doentes. Ele afirma, sem rodeios, que “existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos sozinhos!”
Somos Igreja, Povo de Deus, com responsabilidade pastoral. O pastoreio não é de encargo somente de um padre, ou de um bispo, ou de um religioso, mas pertence a todo o povo de Deus. Somos um povo de pastores, convidado a assumir o nosso batismo, a trabalhar em favor da vida, a superar a autorreferencialidade e uma espiritualidade estritamente intimista.
A Igreja nos convida a rezar, neste domingo do Bom Pastor, pela vocações. Destaco também, nesta reflexão, algumas ideias da mensagem do papa Francisco para este dia, com o tema: “São José: o sonho da vocação”, em sintonia com a celebração do ano dedicado a José.
O papa constata a vida discreta de José, mas capaz de realizar algo de extraordinário aos olhos de Deus. Ele não pronuncia uma palavra nos Evangelhos, mas distingue-se por um coração generoso, capaz de dar e gerar vida no cotidiano. As vocações devem gerar e regenerar vidas todos os dias. Este deve ser o compromisso, sobretudo das vocações sacerdotais e religiosas, especialmente neste período de pandemia, com incertezas sobre o futuro e o próprio sentido da vida.
Três ideias são apresentadas pelo papa Francisco na sua mensagem: os sonhos de José, o serviço e a fidelidade.
Os quatro sonhos de José (cf. Mt 1,20;2,13.19.22) podem ser vistos como chamados de Deus, que mudaram os projetos pessoais do patriarca, pois seu coração estava voltado para o Senhor. Nos sonhos ele reconheceu a voz discreta de Deus que se manifesta no nosso íntimo com mansidão e não com espetáculo. Mesmo que os sonhos tenham sido perturbadores, revelaram o desejo de Deus em suscitar e defender a vida do seu Filho. Eles impelem José a sair, a dar-se, a ir além de si. Mas em todos os transtornos trazidos, “revelou-se vitoriosa a coragem de seguir a vontade de Deus”.
O papa também destaca José como modelo de serviço: em tudo ele vive para os outros e não para si mesmo. O serviço foi a regra de vida cotidiana dele. Ele foi a mãoestendida do Pai celeste para o seu Filho na terra.
Quanto à fidelidade ao chamado, José teve a coragem de dizer sim, embora fosse exigente a missão. As primeiras palavras que ele ouviu foram: “não temas!” (Mt 1,20). A fidelidade de José não foi quebrada em vista das dificuldades enfrentadas.
Como José, cada pessoa chamada por Deus deve ter um sonho, uma utopia a seguir, uma razão para fazer valer a pena viver. Na inquietação vocacional inicial está um sonho de ser feliz e de fazer os outros felizes, servindo e contribuindo para a construção de um mundo melhor. José é modelo de serviço para todas as vocações, que devem ser as mãos amorosas do Pai em prol dos seus filhos e filhas. Também é modelo de coragem na resposta ao chamado divino. O convite que Deus fez a José a não ter medo se atualiza em cada vocação.
Neste dia de oração pelas vocações, rezemos pelo nossoquerido papa Francisco, pelos nossos bispos, pelos nossos padres, pelas nossas pastorais e por todas as pessoas que assumem o seu lugar de serviço. De um modo especial, rezemos pelas pessoas que sofrem perseguições por causa da defesa da dignidade da vida humana, sendo fiéis ao projeto de Cristo.
Desejo que a celebração do mistério pascal renove nossa esperança e fortaleça nossa caminhada neste tempo inesperado de pandemia.
*Bispo de Gooás-GO

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IV domingo da Páscoa o dia do Bom Pastor

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