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A adesão ao Reino não é uma questão de saber e conhecer mandamentos, mas de viver a misericórdia

Lucas diz que o samaritano da parábola se encontra nas fileiras dos que agem com compaixão

Lucas diz que o samaritano da parábola se encontra nas fileiras dos que agem com compaixão (Free Bilble Images/ Lumo Project)

Tânia da Silva Mayer*

A fé é um componente humano, sem a qual a vida se tornaria impossível. Ela se manifesta de maneira tal que acreditamos que viver é possível e que tudo o que somos, temos e fazemos têm sentido. Para além dessa perspectiva antropológica, a fé se manifesta teologicamente quando o ser humano se abre a Deus como que respondendo ao chamado a uma conversa íntima e pessoalíssima. Mas essa segunda perspectiva não é óbvia. Enquanto resposta a um chamado, ela requer certa maturidade que torna possível um passo além nessa relação entre Deus e o crente. No cristianismo, essa maturidade se manifesta na adesão irrestrita ao Reino de Deus.

A participação no Reino é uma questão forte no tempo de Jesus. Os Israelitas cultivavam entre si a expectativa de estarem destinados a herdar a vida eterna. Por isso, veremos no Novo Testamento muitos relatos e parábolas que desenvolverão temas que evocam essa perspectiva de participação no Reino de Deus – que poderá aparecer como sinônimo da vida eterna pretendida por muitos. O próprio Jesus dará início a sua missão pregando a proximidade do Reino. Mas para acolhê-lo é necessária a conversão do coração, que culmina numa séria transformação da vida que torna a pessoa crente capaz de dar um passo a mais em direção a Deus, ao outro e ao mundo. Sem a conversão do coração, que nos torna capazes de romper com esquemas mesquinhos de autorreferencialidade, a adesão ao Reino é puro farisaísmo hipócrita.

Como a fé não é um dado óbvio e pronto, ela deve ser vivida como um processo permanente de iniciação. Por isso, a cada dia devemos nos fazer perguntas e abrir nossos ouvidos às respostas nem sempre tão objetivas. É esse o caminho que Jesus faz com um legista em LC 10, 25-37. O teólogo do tempo de Jesus o indaga sobre aspectos importantes da Lei mosaica. Mas Jesus, pedagogicamente, deixa que o teólogo fale o que já havia aprendido em longos anos de estudos. Está claro para o homem que a vida eterna é alcançada amando a Deus com tudo o que se é e se tem e ao próximo como a si mesmo. Diante da resposta correta do homem, Jesus declara que ele falou bem, basta fazer o que disse para viver a vida eterna tão desejada.

Mas buscando não encerrar o assunto no ponto que já era muito claro para quem se dedicava aos estudos da Lei, o legista indaga a Jesus sobre quem é o próximo dele. Nesse momento, Jesus inicia uma catequese que quer mudar a perspectiva de seus ouvintes sobre a temática. Para isso, conta a história que gira ao redor de um homem que partia de Jerusalém para Jericó e que é surpreendido por assaltantes que o deixam desprovido dos pertences e semimorto. Por esse caminho passam três personagens: um sacerdote, um levita e um samaritano. Vale ressaltar que a estrutura social depois do exílio e contemporânea a Jesus identificava três classes na composição da sociedade judaica: sacerdotes, levitas e israelitas. Ao mudar a trilogia tradicional das personagens, Jesus provoca a consciência dos presentes. Isso se dá, sobremaneira, por ele introduzir a figura de um samaritano, pertencente a um povo considerado indigno da misericórdia divina.

Diante da pergunta – quem é meu próximo? – Jesus narra a ação nula de um sacerdote e de um levita diante de um homem semimorto. O antigo testamento ensinou que tocar em um cadáver tornava os homens impuros para os ritos litúrgicos. É, no mínimo, estranho que tanto o sacerdote e o levita estivessem saindo de Jerusalém, portanto, já deveriam ter realizado os ritos no Templo e poderiam muito bem ter agido em favor do homem, note-se bem, semimorto e não morto. Mas a ação de socorro é realizada por um samaritano. Essa ação é descrita simbolicamente por Lucas, a fim de revelar a perfeição desse gesto.

Para isso, Lucas utiliza sete movimentos ou atitudes anteriores e sete posteriores ao gesto do samaritano. Assim ele o apresenta: moveu-se de compaixão; aproximou-se; cuidou de suas chagas; derramou óleo e vinho; colocou-o em seu próprio animal; conduziu-o à hospedaria; dispensou-lhe cuidados. Do mesmo modo, “no dia seguinte”: tirou dois denários; deu-os ao hospedeiro; dizendo; cuida dele; e o que gastares a mais; em meu regresso; te pagarei. O evangelista sabe bem que sete é símbolo da perfeição, isto é, da totalidade. Por isso, Jesus ensinava aos discípulos que eles deveriam perdoar setenta vezes sete.

Consciente dessa arquitetura literária, Lucas está dizendo que o samaritano se encontra nas fileiras dos que agem com compaixão. E mesmo embora a compaixão seja um componente humano, o povo da bíblia e os autores sagrados afirmam categoricamente que ela é o modo como Deus age para com o ser humano. Ademais, Deus é todo entranhas de compaixão e misericórdia. Esse mesmo povo suplica a Deus ser misericordioso e santo como ele. Dizer que o samaritano agiu conforme a medida de Deus é colocá-lo num horizonte, antes, impensável, que provoca certa revolução diante da pergunta do doutor da lei. O próximo não é aquele necessitado de atenção e amor, isto é, alguém passivo que ocupa o lugar de objeto. Para Lucas, o próximo é o sujeito da ação, aquele que é capaz de mudar o próprio rumo para ir ao encontro do outro por compaixão e misericórdia.

Nessa esteira, Jesus reformula a pergunta. Sem responder, “E quem é o meu próximo?”, ele retoma a pergunta na perspectiva da ação: “Qual dos três, em tua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. Sem restar dúvidas, o legista afirma que é aquele que se moveu por compaixão. E aqui é o samaritano que revela a compaixão como virtude humana e conformação a Deus. Logo o samaritano que não estava nem perto de ser considerado como próximo, segundo os ensinamentos dos religiosos de Israel. Mas a atitude dele reformula sabiamente uma compreensão estreita da Lei. Precisamente, é isso que se deve fazer: “Vai, e também tu, faze o mesmo”. Porque é esse fazer que mostra o próximo como aquele que se antecipa no amor apesar das fronteiras que possa encontrar para amar.

Nesse ponto, Jesus está ensinando que a adesão ao Reino ou à vida eterna, como queiramos, não é uma questão de saber e conhecer. Isso o legista entendia demasiadamente graças aos anos de estudo. Não que isso deva ser dispensado, mas Jesus está pontuando que a práxis faz todo sentido nesse processo de amadurecimento da vida de fé. Por essa razão, haveremos de suspeitar de quem vive a fé por teoria e não como virtude cotidiana, encarnada no mundo, no encontro com o outro. E como estamos todos imersos num processo de iniciação, no qual desejamos ser cada dia mais parecidos com Jesus e com aqueles homens e mulheres que têm o Reino como herança, podemos começar a expandir nosso olhar e a ação das nossas mãos para além de nossos umbigos, como abertura sincera e eficaz que nos faz próximos das pessoas que ainda hoje se encontram semimortas às margens de nossa sociedade.

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E quem é o (meu) próximo?

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