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 “Soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22)

Dom Jeová Elias*

HOMENAGEM À DOM JEOVÁ ELIAS - YouTubeNeste domingo concluímos o ciclo litúrgico da Páscoa com a Solenidade de Pentecostes, ou o envio do Espírito Santo sobre a Igreja nascente. A palavra pentecostes, de origem grega, significa quinquagésimo. Faz referência a cinquenta dias. Esta Solenidade que hoje celebramos tem raízes antigas. Inicialmente era ligada à vida do povo camponês, como uma festa da colheita (Ex 23, 16; Nm 28, 26; Lv 23, 16ss). Celebravam a alegria por colherem as primeiras espigas do trigo e manifestavam gratidão a Deus, oferecendo as primícias dos frutos colhidos. Mais tarde, Pentecostes passou a celebrar um fato marcante na história de Israel: o aniversário da aliança firmada com Deus cinquenta dias depois da Páscoa (Ex 19, 1-15), da saída da escravidão no Egito para a liberdade dos filhos e filhas de Deus. Agora eles recordam a Lei recebida, que deverá defender a dignidade da vida para todos.

Nós cristãos, seguindo a ensinamento de Lucas na primeira leitura desta Solenidade (cf. At 2, 1-11), celebramos o coroamento da Páscoa com o envio do Espírito Santo sobre os apóstolos, cinquenta dias depois da ressurreição de Jesus Cristo. Contudo, para São João, o envio do Espírito Santo ocorre no mesmo dia da ressurreição. Pentecostes é a festa da unidade na diversidade do amor; a festa da efusão do Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, o qual, durante muito tempo, ficou relegado a segundo plano, porque não tinha uma representação humana. Era retratado como fogo, como brisa, como pomba, a imagem mais popular, e como ar, conforme apresenta João: Jesus soprou sobre os apóstolos e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).

A palavra Espírito, em hebraico, é Ruah, que significa sopro, vento. Em grego é Pneuma, que também significa ar. Em latim é Spiritus, como a força vital de Deus. É impossível viver sem o ar. A vida somente é possível através da ação do Espírito Santo. Ele é a alma da Igreja. A representação do Espírito como ar manifesta a impossibilidade da vida sem Ele. É impossível viver sem respirar! A pandemia que nos assola confirma isto. Passamos alguns dias sem comer e sem beber, mas não conseguimos resistir alguns minutos sem respirar. O elemento mais imprescindível para a vida é o ar. O Espírito é o ar que move a nossa vida: sem Ele não podemos acreditar, não podemos viver, não podemos amar, não podemos fazer o bem.

O sopro que Jesus insufla sobre os Apóstolos também recorda e resgata a criação divina, o vento que soprava sobre as águas, fecundando a obra da criação (Gn 1, 2). Recorda ainda o sopro divino de vida no relato da criação do homem, tornando-o um ser vivente (Gn 2, 7). Na nova criação, o Espírito age fazendo com que Maria conceba Jesus Cristo, o Filho de Deus. Agora Ele gera a Igreja, renova a vida, renova a obra da criação divina. O Espírito Santo é força encorajadora para missão. Jesus hoje diz: “como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20, 21), e sopra o Espírito. Esse sopro divino enche os Apóstolos de audácia para viverem e anunciarem o Evangelho. Eles, que estavam trancados, assustados e medrosos, agora, pela ação do Espírito Santo, rompem as barreiras e se dirigem para o mundo.

Desejamos que este sopro encorajador do Espírito nos ajude a ser uma Igreja em saída, como pede o querido Papa Francisco: indo às periferias existenciais e geográficas, ajudando a renovar a esperança dos pobres e renovando também o nosso compromisso com eles. Já somos habitados pelo Espírito Santo, mas para a vida relacional, a vida em comunidade, não simplesmente para deleite pessoal. Do Espírito Santo recebemos a riqueza dos dons para viver em comunidade, para servir, não simplesmente para o capricho, para a vaidade de quem quer que seja. Acolhamos com alegria o sopro do Espírito enviado por Jesus. Agradeçamos a Jesus pelo ar divino que respiramos e supliquemos que o Espírito Santo inflame a nossa vida para estabelecermos novas relações marcadas pelo amor, nos ajudando a construir um mundo melhor. Abramos o coração para que o Espírito habite nele e nos ajude a transformar a face da terra.

Formulo os votos de que o Espírito Santo seja sopro de vida na sua história, renove a sua esperança, fortaleça sua caminhada e lhe ajude a assumir o seu lugar de serviço na comunidade, colocando os dons que Deus lhe concedeu, e certamente são muitos, a serviço de todos, especialmente dos mais fragilizados. Concluo esta reflexão com a oração do papa Francisco finalizando a pregação sobre a Solenidade de Pentecostes no ano de 2018, na basílica de São Pedro: “Espírito Santo, rajada de vento de Deus, soprai sobre nós. Soprai nos nossos corações e fazei-nos respirar a ternura do Pai. Soprai sobre a Igreja e impeli-a até aos últimos confins, para que, levada por Vós, nada mais leve senão Vós. Soprai sobre o mundo o suave calor da paz e a fresca restauração da esperança. Vinde, Espírito Santo, mudai-nos por dentro e renovai a face da terra”. Amém!

*Bispo do Goiás-GO

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Espírito Santo: sopro que move a nossa vida

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