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Entre as 176 avenidas de Fortaleza, o Diário do Nordeste identificou, em levantamento, apenas uma com nome de mulher. A cearense que reivindicou o direito de ingressar nas Forças Armadas é, em proporção ao número de homens, uma das poucas lembradas nas vias da cidade

Fortaleza tem 176 avenidas, segundo dados da Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma). Entre elas, é difícil encontrar nomes de mulheres. Levantamento obtido pelo Diário do Nordeste identificou apenas uma: a Jovita Feitosa, localizada na Secretaria Executiva Regional (SER) III, que separa Parquelândia e Parque Araxá de Amadeu Furtado e Rodolfo Teófilo.

A homenagem na Avenida norteia o segundo perfil da série do Diário do Nordeste sobre mulheres que marcaram a história do Ceará, costurado, neste texto, à presença ainda tímida de figuras femininas que nomeiam logradouros da Capital. Jovita reivindicou o direito de ingressar nas fileiras das Forças Armadas, algo que só começou a ser conquistado pelas mulheres, aos poucos, em 1996, quando começaram a ser aceitas pela Aeronáutica para a linha de frente.

Nascida em 1848, no sertão cearense dos Inhamuns, na região onde hoje fica Tauá, ela se disfarçou de homem para unir-se aos Voluntários da Pátria, atendendo a uma campanha de recrutamento do Império em meio à Guerra do Paraguai, em uma época na qual já morava no Piauí.

Feitosa chegou a ser aceita como primeiro sargento do Corpo de Voluntários, mas as feições femininas levaram-na a ser descoberta. Em interrogatório policial, aos prantos, deixou claro o desejo de lutar nas trincheiras, o que acabou chamando a atenção do então governador da província do Piauí, Franklin Dória, que interveio para que Jovita fosse incorporada ao Exército.

Ela, entretanto, nunca conseguiu acessar as trincheiras. Chegou a ser recebida pelo próprio Dom Pedro II na buscar de ir ao front, mas seu gênero foi usado para impedí-la de servir em uniforme. Ao retornar ao Piauí, teve dificuldades em se adaptar novamente ao cotidiano civil. Voltou ao Rio de Janeiro, onde cometeu suicídio em 1867, aos 19 anos.

Vias

A militar ser uma das poucas a dar nome a uma avenida na Capital reflete uma desproporcionalidade. Mais da metade da população de Fortaleza é composta por mulheres. Entretanto, de acordo com levantamento feito pelo Diário do Nordeste a partir de dados fornecidos pela Seuma, pouco mais de 8% das 2,3 mil vias da cidade homenageiam figuras femininas. Homens, por outro lado, emprestam seus nomes a mais de 70% das vias.

Há diversas homenagens, inclusive, a homens que não nasceram e nem fizeram carreira no Ceará. Leonel Brizola, por exemplo, dá nome a uma avenida no Jangurussu, na SER VI. Nascido no Rio Grande do Sul, ele foi o único político brasileiro a governar dois estados diferentes. Não o Ceará.

Em 2015, Brizola teve seu nome aprovado para o Panteão da Pátria, que homenageia aqueles que se destacaram na defesa do Brasil. Outros homenageados também emprestam nomes a importantes vias da cidade, como Duque de Caxias e Santos Dumont e mesmo Bárbara de Alencar e a própria Jovita Feitosa. O mesmo não acontece, por exemplo, com Clara Camarão, indígena que liderou um pelotão feminino contra a ocupação holandesa no Nordeste e que também faz parte do Panteão. Já o esposo dela, Filipe Camarão, batiza uma rua no Jacarecanga, na SER I.

A representação feminina é maior nos nomes de outros logradouros públicos. A rede municipal de ensino é um exemplo, embora, nela, as mulheres ainda sejam minoria. Segundo dados da Secretaria Municipal de Educação, das 571 unidades do parque escolar da Capital, quase 30% homenageiam mulheres. Homens, por sua vez, batizam 307 equipamentos, o que representa mais de 50% do total. O levantamento não leva em conta repetições: há, por exemplo, duas escolas chamadas “Padre Cícero Romão Batista” e quatro batizadas de “Rachel de Queiroz”.

A situação é semelhante nos equipamentos de saúde, segundo informações da Secretaria Municipal de Saúde. Dos mais de 100 postos de saúde da Capital, apenas 19 têm nomes de mulheres. Entre os hospitais, são quatro homenageadas entre 10 equipamentos e uma lembrada na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA), de seis da cidade.

Legislativo

Nomear esses equipamentos é prerrogativa da Câmara Municipal de Fortaleza. E, conforme apontou o Diário do Nordeste em fevereiro, os vereadores o fazem com frequência: uma em cada dez leis ordinárias aprovadas pela Casa em 2018 versava sobre nomeação de logradouros.

Para a historiadora Ana Rita Fonteles Duarte, da Universidade Federal do Ceará (UFC), nomear esses equipamentos é um exercício de poder. “As mulheres estão fora dessas esferas de poder, exercem pouco essas relações de poder”, observa. A historiadora, contudo, também destaca que nomear equipamentos em homenagem a mulheres, por si só, representa pouco. “Muitas vezes, o fato de você homenagear, oferecer flores ou nomes de ruas não significa você tratar de forma igual”.

Ana Rita Fonteles, entretanto, destaca que a ausência dos nomes de figuras femininas em vias e equipamentos públicos não está descolada de um processo de invisibilização feminina na sociedade. A vereadora Larissa Gaspar (PPL) concorda. “Onde nós aparecemos, infelizmente, são nos índices de violência doméstica”, lamenta. Para ela, essa ausência, material e simbólica, importa. “Faz parte de um processo intrinsecamente ligado à cultura machista, que nos inferioriza, que nos põe como responsáveis apenas por um papel reprodutivo”, atribui.

Em outro espectro ideológico, a vereadora Priscila Costa (PRTB) também defende maior presença de mulheres nos nomes de logradouros públicos. “Existe pouco destaque para essas mulheres na história, até para que outras mulheres possam conhecer sua história e se inspirar”, explica. “Se formos para as escolas hoje perguntar para as adolescentes quem foi Jovita Feitosa, elas saberão responder?”, questiona a vereadora.

Avançar

O presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, Antonio Henrique (PDT), pede que se dê tempo ao tempo. De acordo com o parlamentar, por um considerável período, espaços de destaque na sociedade eram ambientes avessos ao gênero feminino, o que pode ter impedido o reconhecimento de mulheres dignas de homenagens com nomes de logradouros na Capital na mesma proporção que aconteceu com os homens.

O parlamentar espera que esse “gap” se feche conforme o tempo passa. “Acredito que, daqui por diante, vai crescer, e teremos muito mais mulheres para homenagear na medida em que forem surgindo novos equipamentos (públicos), novos espaços”, projeta.

Campanha

Com o objetivo de estimular as mulheres a narrarem e compartilharem suas próprias histórias, amplificando suas vozes sobre as conquistas, as angústias e as denúncias do dia a dia, o Sistema Verdes Mares promove, ao longo do mês de março, a campanha “O que as mulheres têm a dizer”. Compartilhe sua história abaixo. O material será submetido a uma curadoria e pode se transformar em pautas jornalísticas. Ao fim do mês, este material será reunido em um caderno especial que será publicado pelo Diário do Nordeste. Nesta edição, todas as matérias serão escritas por mulheres.

Diário do Nordeste

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Jovita Feitosa: quem é a mulher que dá nome a uma avenida na Capital

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