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Passagem de padre Iglesias reafirma seu legado como fiel e bom pastor

Manuel Eduardo Tomas Iglesias Rivas, o padre Iglesias

Manuel Eduardo Tomas Iglesias Rivas, o padre Iglesias (Reprodução Núcleos Inacianos)

Geraldo de Mori*

Na noite do dia 15 de setembro, Festa da Exaltação da Santa Cruz, fez sua páscoa definitiva o padre Manuel Eduardo Tomas Iglesias Rivas, jesuíta, que, entre 1984 e 1997, trabalhou em Belo Horizonte, no antigo Instituto Santo Inácio (ISI), hoje Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), ocupando-se, sobretudo, do acompanhamento espiritual e pastoral dos estudantes jesuítas. 

Antes de sua missão em Belo Horizonte, tinha trabalhado em Brasília, para onde regressou em 1998, lá ficando até 2012, quando foi para o mosteiro de Itaici, em Indaiatuba, São Paulo, sempre se ocupando com atividades ligadas ao acompanhamento espiritual e aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio.

Para os que tiveram a graça de conhecê-lo, de conviver e trabalhar com ele ou de tê-lo como acompanhante espiritual nos Exercícios, acordar no dia 15 foi, ao mesmo tempo, motivo de tristeza, pela perda de uma pessoa extraordinária, mas também de gratidão a Deus, por tanto bem recebido através de um de seus filhos que muito se assemelhou a seu Filho.

Padre Iglesias, como era conhecido por todos, originário da Espanha, viveu toda sua vida de padre no Brasil, dedicando-se, fundamentalmente, ao acompanhamento de pessoas em busca de Deus, através da espiritualidade inaciana. Os Exercícios Espirituais foram por muito tempo identificados como dirigidos a uma elite, constituída, sobretudo, de bispos, padres, seminaristas, religiosos, religiosas, leigos e leigas que dispunham de recursos para pagar uma estadia numa casa de retiros. 

Após o Concílio Vaticano II, todas as ordens religiosas foram chamadas a uma volta às fontes. Fruto disso, no caso dos jesuítas, foi a redescoberta de uma modalidade de Exercícios prevista por Santo Inácio na Anotação 19, que, no Brasil, deu origem aos Exercícios na Vida Cotidiana (EVC). 

Padre Iglesias foi um dos principais promotores desta experiência no Brasil, com uma novidade importante, não somente propô-la a pessoas das classes mais abastadas, mas, sobretudo, às camadas populares. Para isso, elaborou inúmeros subsídios, que depois se tornaram livros, todos de fácil acesso ao grande público, dando origem a muitos grupos de EVC. 

A vinda das etapas de formação da filosofia e da teologia para Belo Horizonte coincidiu com o surgimento de muitos bairros na região metropolitana. Padre Iglesias, responsável pelo acompanhamento pastoral no ISI, buscou distribuir os estudantes não só nas paróquias dos jesuítas (Cristo Operário, no Planalto, Nossa Senhora da Piedade, em Justinópolis, Cristo Ressuscitado, no Lindeia), mas também em paróquias não jesuítas, contribuindo assim para que muitas comunidades surgissem nas periferias.

Preocupado com a formação de lideranças leigas, ajudou a criar, em 1990, o Curso de Teologia Pastoral (CTP), que recentemente tornou-se Curso de Iniciação Teológico-Pastoral (Citep), formando, nesses 30 anos, inúmeras lideranças paras as diversas pastorais.

Em Brasília, cidade onde morou por duas vezes, participou em várias atividades de acompanhamento espiritual, além de ajudar o Centro Cultural a ser um lugar de acolhida, oração e amizade. Em Itaici, última residência na qual viveu, colaborava ativamente com a programação da casa, propondo também novas atividades, como a dos Exercícios Espirituais para Bispos, o acompanhamento dos Núcleos Inacianos, grupos que haviam feito os EVCs e que queriam continuar vivendo da espiritualidade inaciana.

Para além de todas essas atividades que realizou em sua missão no Brasil, é importante assinalar a pessoa que as realizava. Homem de uma fé profunda, forjada em sua terra natal (Santiago de Compostela, Espanha), alimentada no encontro com tantas pessoas às quais ajudou, mas de quem também sabia aprender. 

Talvez um dos traços que mais o caracterizavam era sua simplicidade, transparência, capacidade de descobrir a Deus nas pequenas coisas, gestos e acontecimentos. Além disso, buscava não complicar a vida, ajudando os que com ele viviam e a ele recorriam a perceber a beleza e a bondade que insistiam em irromper num mundo complicado, marcado pela injustiça e pelo sofrimento.

Na Galdete et exsultate o papa Francisco convida a contemplar a santidade que existe no cotidiano, em tantos gestos simples, que deveriam despertar em quem os descobrem a capacidade de maravilhamento e ação de graças. Padre Iglesias, certamente, foi um dos que tiveram o privilégio de viver esta santidade no cotidiano, descobrindo-a também na vida de tantas pessoas com as quais conviveu e às quais acompanhou. Como servo bom e fiel, foi certamente acolhido pelo Pai para entrar e participar de sua alegria.

*Geraldo de Mori é professor de antropologia teológica e escatologia cristã do Departamento de Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE),Com doutorado em teologia pelas Facultés Jésuites de Paris – Centre Sèvres, França, tem pesquisado, sobretudo, temas relativos à interface entre antropologia e cristologia (criação e evolução, o ser humano como imagem e semelhança de Deus, o problema do mal e do pecado original, graça e justificação, a noção de pessoa etc.) e questões referentes à hermenêutica (filosófica e teológica)

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Morre o jesuíta que tanto amava o Brasil

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