0 Flares 0 Flares ×

O mundo precisa de loucos como Jesus (Mc 3, 20-35)
“Os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que ele estava fora de si” (Mc 3, 21)

Dom Jeová Elias*

HOMENAGEM À DOM JEOVÁ ELIAS - YouTubeEstamos retomando a liturgia do Tempo Comum, após a celebração da Páscoa, cujo coroamento ocorreu na solenidade de Pentecostes. Voltamos a meditar, a cada domingo, os textos do Evangelho de Marcos. A preocupação central desse evangelista é responder à pergunta: quem é Jesus Cristo? Na busca de resposta a esta interrogação, também vamos descobrindo quem somos em relação a Jesus.

O texto deste domingo mostra a contradição da humanidade em relação à compreensão da pessoa de Jesus e sua missão. Já por ocasião da apresentação de Jesus no templo, recém-nascido, o velho Simeão o tomou em seus braços e profetizou que ele seria um ponto de contradição para a humanidade (Cf. Lc 2, 34).

Três grupos se destacam no Evangelho: um grupo que se encontra dentro da casa, que acolhe Jesus e o escuta, que faz a sua vontade, que está com Ele; outro grupo, composto pelos parentes de Jesus, que está preocupado e inquieto com a postura dele, muito diferente para a época: desgarrado da família, um andarilho da vida, um profeta itinerante, sem mulher, sem filhos, sem um trabalho fixo, cercado por pessoas indesejáveis, sem liberdade, sem privacidade para comer, visto como um subversivo. Parecia loucura! “Só pode estar pirado”, pensavam; e o terceiro grupo, que vai para investigá-lo, mesmo que reconheça o seu poder libertador, o bem que Jesus faz, o acusa de fazê-lo com o poder do mal, com a força de Belzebu, literalmente senhor do esterco, ou senhor das moscas ou das alturas, segundo outros exegetas; argumento facilmente desmontado por Jesus Cristo. Neste último grupo estão os escribas, estudiosos da Lei, que descem de Jerusalém para acusá-lo.

Há ainda outro grupo, composto por sua mãe e seus parentes, pois irmãos aqui significam familiares próximos, que procuram Jesus. Estes são diferentes dos parentes acima, que vão para agarrá-lo, acusando-o de louco. Para Jesus, o parentesco mais importante consiste em fazer a vontade de Deus. Sem dúvida, Maria, sua mãe, foi uma fiel cumpridora da vontade de Deus. Ao anúncio do Anjo, imediatamente ela se colocou como serva do Senhor, disposta a fazer a vontade do Pai (Cf. Lc 11,38). A maternidade divina de Maria, além de dom, é consequência do cumprimento da vontade de Deus.

A vida, a palavra e os gestos de Jesus incomodam: só pode ser coisa de louco! De alguém possuído pelo “senhor das moscas” – Belzebu. Os mestres da Lei não reconhecem a obra de Deus nos sinais realizados por Ele, não reconhecem a ação do Espírito Santo, e até mesmo invertem o olhar, atribuindo o bem realizado por Jesus Cristo ao demônio. É um pecado realmente imperdoável, pecado muitas vezes cometido por pessoas que se julgam religiosas e de igreja, mas ignoram o bem feito aos mais sofridos como obra boa, quando provém de alguém visto como inimigo.

Os santos são meio loucos, nadam contra a corrente, muitas vezes são incompreendidos no seu tempo, mas são reabilitados pela história. Muitos são os exemplos: São Francisco, quando se despoja dos seus bens, ao se desligar da sua família e abraçar a pobreza; quando saía pelas ruas, algumas vezes era até apedrejado como se fosse um louco, considerado pelos sãos merecedor da sua agressão. Charles de Foucauld, da aristocracia francesa, abriu mão de tudo e foi viver no deserto com os mais pobres; e tantos outros santos e santas.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, sobre o chamado à santidade no mundo atual, diz que todos nós somos chamados à santidade. Ela deve ser compromisso de todo povo de Deus; os santos e santas podem estar ao nosso redor, na nossa vizinhança, porta-a-porta conosco, como pessoas comuns, que são como um reflexo da presença de Deus.

Para viver a santidade, o Papa propõe um roteiro que são as bem-aventuranças: proposta de nadar contra a corrente; ele destaca, de modo muito especial, a opção pelos pobres. Diz que é impossível viver a santidade à margem dessa opção, prescindindo do reconhecimento da dignidade de todo ser humano (Gaudete et Exsultate n. 98). Claro que essa opção provoca acusações: de ser comunista, de ser populista, de ser movido por ideologia, ou por outros interesses. Muitos já sofreram essa acusação. O próprio Jesus, além de considerado louco, foi acusado de ser subversivo.

O Papa apresenta na Exortação cinco características da santidade, dentre as quais destaco a ousadia e ardor, isto é, a coragem de abraçar o amor de Deus, de deixar-se guiar pelo seu Espírito; não temer ser rotulado de louco. Isso é possível graças à presença de Jesus Cristo, que nos exortou a não ter medo (Cf. Mc 6,50) e que prometeu a sua presença perene conosco até ao fim do mundo (Cf. Mt 28,20).

O mundo precisa de loucos como Jesus: que defendam a dignidade dos pobres, que rompam o pensamento hegemônico do mercado globalizado, que acreditem na possibilidade de um mundo diferente do que está aí; que sejam taxados de comunistas, de populistas, de possuídos pelo “Demo”. Somos convidados a abraçar a loucura do amor de Deus!

Estejamos dentro da casa com esse grupo especial que escuta Jesus, que partilha as suas ideias, que se compromete com seu projeto. Sejamos a família de Jesus, pessoas que buscam fazer a vontade do Pai. Vivamos a loucura do amor de Deus!

*Bispo do Goiás-GO

0 Flares 0 Flares ×
O mundo precisa de loucos como Jesus

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*