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“Não tenhas medo, basta ter fé” (Mc 5, 36)
Dom Jeová Elias*
O Evangelho segundo São Marcos continua perguntando: quem é Jesus? A cada domingo somos convidados a encontrar um pedaço da resposta para, ao final do ano litúrgico, termos o mosaico com a figura de Jesus Cristo.
No texto deste XIII domingo do Tempo comum, Marcos apresenta o terceiro episódio de cura, com a manifestação da misericórdia de Jesus a favor de duas mulheres, vencendo dois poderosos inimigos: uma enfermidade incurável daquela com hemorragia, e a morte da adolescente. Assim, o evangelista apresenta Jesus como aquele que se preocupa com a vida das pessoas, restituindo a saúde da enferma, e como vencedor da morte, aparentemente irreversível, devolvendo a vida da jovem.
Jesus é apresentado em movimento: atravessa o lago de barca, encontra-se no meio de uma multidão na praia, caminha rumo à casa de Jairo, chefe da sinagoga, que implora em favor da vida de sua filha moribunda: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” (Mc 5, 23). Jairo, aflito com a doença da filha, suplica a Jesus pela recuperação da saúde e pela vida da menina.
Marcos inseriu a cena da mulher com hemorragia no caminho de Jesus, rumo à casa de Jairo, criando um suspense e aumentando a expectativa em relação ao desfecho da grave doença da menina. No caminho, Jesus é encontrado e tocado pela mulher. Ali também Ele manifesta sua misericórdia e devolve a saúde dela. Uma multidão o segue pelo caminho, mas somente três apóstolos são autorizados, além dos pais da menina, a adentrar no caminho mais sofrido, no quarto onde jaz a criança.
Ainda no caminho, aparecem os portadores de péssimas notícias, os profetas da morte, que desestimulam a luta pela vida e semeiam a desesperança: “Tua filha morreu. Por que incomodar o mestre?” (v. 35b). São insensíveis diante do sofrimento daquele pai, das lágrimas da mãe e dos gritos das pessoas desesperadas com a morte. Para eles, Jesus não deve ser incomodado com a dor dos outros. Não há mais jeito. Ignoram que para Deus nada é impossível (Cf. Lc 1, 37).
As cenas mostradas pelo Evangelho contêm algumas correspondências: duas mulheres que sofrem; doze anos de enfermidade de uma, e outra que morre aos doze anos; a infração da lei do puro e do impuro com o toque: a mulher com fluxo de sangue que toca Jesus, e Jesus que toca a menina morta (Cf. Lv 15, 25-31; Nm 19, 11); a palavra “imediatamente”, que se repete nas duas cenas: ao cessar a hemorragia da mulher após tocar a túnica de Jesus e após a ordem de Jesus: “Menina, levanta-te! (Mc 5, 30.32).
Há também alguns contrastes nos relatos das duas cenas: entre a multidão em torno de Jesus e o pequeno grupo na casa de Jairo; entre a ação da mulher e a inatividade da menina; entre o dinheiro gasto com os médicos pela mulher e a gratuidade de Jesus; entre o contato direto de Jairo com Jesus e o contato disfarçado da mulher; entre o choro desesperado das pessoas na casa de Jairo, que não acreditam no poder de Jesus, e a fé da mulher de que ao menos tocando a roupa dele ficaria curada.
As duas mulheres agraciadas pela ação de Jesus pertenciam aos grupos marcados pelo preconceito e desrespeito de uma sociedade machista. A que tinha hemorragia, além do sofrimento da enfermidade, carregava a dor de ser considerada ritualmente impura e sofria as prescrições impostas pela lei. Poderia ser equiparada a uma pessoa portadora de uma enfermidade altamente contagiosa, que não pode tocar em nada. Tornava-se fonte de contaminação para os outros. Estivera privada da intimidade conjugal e do dom da maternidade ao longo dos doze anos. A menina, morta antes da possibilidade de contrair matrimônio, também tornara-se impura pela precoce morte. Mas Jesus rompe os preconceitos, deixa-se tocar pela hemorroíssa e toca a falecida. O contato dele faz recuperar a esperança, devolve a vida.
Neste tempo doloroso de pandemia, são tantos os sofridos Jairos que acorrem a Jesus na esperança de obter o restabelecimento da saúde de um filho, de um pai, mãe, irmão, amigo… que imploram, confiantes, como Jairo: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” (Mc 5, 23). Um pequeno grupo adentra o ambiente dos leitos de dor, solidário nos cuidados e empenhando-se na busca de cura, na luta pela vida.
Mas há também os profetas da morte, que não querem incomodar o deus mercado, tampouco ser incomodados. Que não somente são indiferentes às lágrimas dos familiares e amigos dos mais de quinhentos mil mortos no nosso maltratado país, mas até zombam da sua dor, como os que zombaram de Jesus ao afirmar que a vida não perecera (Cf. Mc 5, 40). A vida de cada pessoa é preciosa aos olhos de Deus e da Igreja. Ignorar o sofrimento humano é ignorar a presença de Jesus Cristo entre nós.
Diante da notícia da morte de sua filha, Jairo é convidado por Jesus a não ter medo, a ter fé (v. 36). Como aquele pai aflito, também não devemos ser movidos pelo desespero, mas pela fé e pela esperança. Como diz o Papa Francisco: “Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!” (Evangelii Gaudium n. 3).
*Bispo Diocesano de Goiás

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Os profetas da morte zombam da dor (Mc 5, 21-43)

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