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Veja como será o ‘novo normal’ do papa Francisco

Papa Francisco acende vela em evento interreligioso, promovido pela comunidade Santo Egídio, em outubro deste ano.

Papa Francisco acende vela em evento interreligioso, promovido pela comunidade Santo Egídio, em outubro deste ano. (Andreas Solaro/AFP)

Mirticeli Medeiros*

A vida de Francisco (e a de todos nós) começou a ficar incerta a partir de março de 2020. Um vírus letal, que até então circulava em território chinês, chegou à Europa sem pedir licença. E não demorou muito para atravessar o Atlântico, atingir países mais pobres e arrasar famílias inteiras. Nossos projetos, viagens e sonhos tiveram que ficar para depois. O mundo parou diante de uma ameaça invisível.

Muitos se foram sem poder se despedir dos seus parentes. Todos os dias, infelizmente, renovamos esse luto. Para o cristão, o “desconhecido” que luta pela vida numa UTI de hospital é um irmão. É o homem ferido na estrada, diante do qual o bom samaritano que passa, como ensina a parábola, não pode ficar indiferente. Portanto, um “e daí?” diante do sofrimento alheio nunca fez parte do vocabulário evangélico.

É um ano para esquecer. Mas também para lembrar e agradecer por estarmos vivos. O Te Deum do dia 31, o hino utilizado na liturgia católica em eventos solenes de ação de graças, deverá ser entoado para celebrarmos também essa vitória.

Francisco subiu as escadarias da Basílica São Pedro, naquela noite chuvosa de 27 de março de 2020, consciente de que era só o início da batalha. Ele também teve que rever o seu papado. A propósito, o líder máximo da Igreja Católica admitiu, em uma entrevista, que a pandemia o havia colocado em crise. Ele teve que fazer as contas, afinal, é gente como a gente.

E agora, o que vem pela frente?

Num momento em que vários países do mundo anunciam seus planos de vacinação, inclusive o Vaticano, o papa surpreende o mundo ao confirmar que visitará o Iraque em março de 2021. À primeira vista, pode parecer que o pontífice tenha agido de maneira inconsequente. No entanto, é provável que, até lá, todos os cidadãos de seu pequeno Estado já estejam vacinados. O Vaticano, possivelmente, será o primeiro país do mundo a conseguir esse feito, já que conta com pouco mais de 800 habitantes.

Para além da discussão se foi prudente ou não o papa ter marcado essa viagem, uma coisa é certa: no ano da retomada, que será 2021, Francisco orientará todo o seu trabalho pastoral para as periferias. Se ele já faz isso ao longo de quase 8 anos de governo, fará ainda mais no ano que vem.

Não me surpreenderia se ele incluísse na lista de suas visitas apostólicas alguns países da América Latina e outros do Oriente Médio. Ir para onde ninguém quer ir ou jamais foi virou regra no pontificado atual. Para Francisco, é a expressão máxima do “ser pastor com cheiro de ovelhas”. E não existe pastor sem povo. Não existe Igreja que não se volte para os pobres.

É provável que o santo padre privilegie os países onde os problemas sociais foram mais acentuados pela pandemia. E nada melhor que iniciar por um dos países mais arrasados pelas guerras no século 21, como é o caso do Iraque. A terra de Abraão, o patriarca bíblico que os cristãos chamam de “pai de todos aqueles que creem no mesmo Deus”, será palco de uma nova fase que se inicia para Francisco.

O coronavírus fez com que o país mergulhasse (ainda mais) na crise humanitária da qual nunca saiu desde 2003, quando os Estados Unidos e seus aliados invadiram o território. Por lá, sobretudo agora, o deserto virou cemitério, como relataram algumas agências de notícias internacionais.

Ao longo de 2020, Francisco fez um apelo à comunidade internacional para que deixe de investir em armas e use esse dinheiro para socorrer os países mais pobres. Também pediu um cessar-fogo global “que permita a paz e a segurança indispensáveis para fornecer a assistência humanitária”. Ele pensa nos países que receberam várias sanções por parte das grandes potências e, por conta disso, não puderam receber suporte necessário para combater a doença.

Francisco pediu um pacto global de fraternidade na sua encíclica Fratelli Tutti, publicada em outubro deste ano. Através das suas próximas viagens e documentos, certamente vai reforçar esse desejo. Se “todos estão no mesmo barco”, como ele disse em várias ocasiões, quer mostrar que, somente juntos, poderemos chegar à terra firme.

Será um ano diferente para um papa que estava acostumado a seguir um programa muito específico. Ele assume a responsabilidade de preparar a Igreja para uma mudança de época. E isso ficou evidente tanto nos últimos textos que lançou quanto no último consistório que convocou. Os seus gestos, daqui para frente, serão uma resposta a essa missão que acabou sendo desenhada pela própria pandemia.

Francisco se prepara para o fim e para o novo; coroa seu pontificado com o discurso da esperança, mas não deixa de denunciar as mazelas da sociedade. Sabe que o tempo urge e o próximo papa que virá terá muito trabalho.

Ele pensa na Igreja e no mundo do pós-pandemia. Quer que o cristianismo resplandeça como uma proposta que dá sentido à vida, não como uma religião dos perfeitos onde o ritualismo estéril transforma as comunidades católicas em “guetos dos perfeitos”. Se ao longo da história, quando a humanidade estava em ruínas, a Igreja assume as vestes de um grande hospital de campo, como pontua o papa Francisco, para ele é hora, então, de não negligenciar essa característica que lhe é própria.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

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Para onde o papa vai em 2021?

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