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Mensagem de Dom Jeová EliasDomingo de Páscoa (Jo 20,1-9)
Dom Jeová Elias*

Meus queridos amigos e minhas queridas amigas, Celebramos nestes dias a Páscoa de Jesus, mistério fundamental da nossa fé cristã e centro de toda a nossa liturgia. A palavra Páscoa, de raiz hebraica, significa passagem. Sua origem está ligada à cultura agrária e pastoril dos povos primitivos. Era uma festa primaveril, de passagem do inverno para a primavera, quando se experimentava a alegria da natureza que se refazia verdejante na nova estação do ano. Tratava-se de uma festa da família. Era própria de vários povos.

O povo hebreu, a partir da sua experiência de escravidão no Egito, passou a dar à festa primaveril um novo significado: não mais passagem da natureza morta para o verdejante renascer, mas passagem da escravidão sofrida no Egito, para a liberdade da terra prometida.

Em Jesus Cristo, a Páscoa é plenificada: é passagem da morte para a ressurreição gloriosa. É vitória da vida sobre a morte e sobre tudo o que representa morte. Na ressurreição de Jesus está a resposta de Deus ao porquê formulado por Ele ao ser crucificado: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). Naquele momento Deus parecia mudo, Jesus não obteve resposta. Mas hoje Deus responde-lhe, ressuscitando-o dos mortos, devolvendo-lhe a vida. Jesus não ficou cativo da morte, a grama não nasceu na sua sepultura.

O Evangelho deste domingo de Páscoa apresenta a ida de Maria Madalena ao sepulcro, no primeiro dia da semana. Era o dia da nova criação. O texto destaca que era bem de madrugada (v. 1). Ainda estava escuro. Podemos recordar aí o primeiro dia da criação quando “as trevas cobriam o abismo” e Deus disse: “haja a luz” (Gn 1,1-2). As trevas, na perspectiva do evangelista João, representam a negação da vida, a rejeição a Jesus: “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz” (Jo 3,19). No ressuscitado brilha a luz da nova criação.

Maria Madalena representa a comunidade que sofre a dor da morte, sem perspectiva de fé, e vê o túmulo vazio como o lugar do fracasso de Deus. Ela fala no plural comprovando que representa a comunidade: “tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram” (v. 2). Parecia que a morte havia interrompido a vida definitivamente. Ao ver o túmulo vazio, Maria Madalena chega a uma conclusão lógica: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram” (v. 2).Ela fica perplexa, não entra no túmulo, mas corre para avisar os discípulos Pedro e o outro, destacado por João como o amado de Jesus. O corpo do Senhor talvez tivesse sido roubado.

A palavra túmulo aparece 7 vezes nos 9 versículos do Evangelho deste domingo. Evoca a dor diante da constatação do aparente fracasso diante da morte. Contudo, o túmulo vazio, visto num primeiro momento como indício de violação, torna-se prenúncio de vitória sobre a morte. Os panos estão dobrados, não jogados, sinal de que não houve roubo do corpo de Jesus, pois os ladrões não teriam a preocupação em dobrar o sudário. Conclui-se que “O túmulo não é o lugar da morte, e sim do encontro do Senhor da vida com sua esposa, a comunidade” (Bortolini, roteiros homiléticos, p. 92).

Os dois discípulos também correm, mas aquele que Jesus amava correu mais rápido e chegou primeiro; depois chegou Pedro. Eles viram e creram, pois ainda eram lentos para acreditar nas Escrituras. Também eles representam a comunidade que não tinha assimilado a morte de Jesus.

Joao não nomeia o discípulo que corre rápido ultrapassando Pedro; diz somente ser “o que Jesus amava”. O que se sente amado tem mais vigor para correr, para ir ao encontro da pessoa que ama. Com certeza o discípulo amado é cada um de nós. Somos convidados a correr ao encontro do Senhor e a experimentar o seu amor. Quem ama tem pressa. Deixemo-nos amar por Ele, e amemo-nos como Ele nos amou.

A Páscoa de Jesus não deve ser vista apenas como um fato do passado, tampouco restringir-se à vida futura, na eternidade. Ela abre-nos à esperança de dias melhores no presente, em que as trevas das injustiças não imperem e impeçam o desabrochar da potencialidade da vida concedida por Deus. No Ressuscitado também somos vitoriosos.
A celebração da Páscoa de Jesus é convite a passar de toda experiência de morte à vida. A ressurreição de Jesus nos convence de que Deus faz justiça às vítimas inocentes: faz triunfar o bem sobre o mal, a verdade sobrea a mentira, o amor sobre o ódio. Também nos convence da beleza do ideal assumido por Ele na defesa dos mais sofridos.

A vitória do crucificado Jesus Cristo é a vitória de todos os crucificados injustamente. Se Deus o ressuscitou, “é porque quer introduzir justiça diante de tanto abuso e crueldade que se comete no mundo. Deus não está do lado dos que crucificam, está com os crucificados. Só há uma maneira de imitá-lo: estar sempre junto dos que sofrem, lutar sempre contra os que fazem sofrer” (Pagola, O Caminho aberto por Jesus – João, p. 241).

Concluo esta reflexão desejando a você, querido amigo e querida amiga, ânimo na caminhada, esperança em meio à tentação de desesperançar. “Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!” (Evangelii Gaudium n. 3).

Tenha uma Feliz e abençoada Páscoa, juntamente com a sua família e todas as pessoas do seu convívio. Desça sobre você, sobre sua família e seus amigos, a bênção de Deus misericordioso: Pai, Filho e Espírito Santo.

*Bispo de Goiás -GO

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Páscoa: nova criação

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