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Mensagem de Dom Jeová Elias

“Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo15,5).

Dom Jeová Elias*

No Evangelho deste V domingo da Páscoa Jesus se apresenta como a videira verdadeira; também apresenta o Pai como o Agricultor e os seus discípulos como os ramos da videira.
A videira era uma plantação de uvas muito importante na cultura da terra de Jesus, com as exigências que trazem essas plantações, sobretudo das podas no tempo correto, para que a planta realmente produzisse frutos agradáveis.
A imagem da videira foi aplicada muitas vezes ao povo de Israel como indicativo da predileção divina (Cf. Jr 2,21; Is 5,1-7). Deus plantou e cuidou daquela vinha para que produzisse frutos de justiça e santidade; ofereceu os meios necessários para que ela desse uvas boas. Mas Israel não correspondeu à expectativa divina: ao invés de produzir frutos de direito e de justiça, produziu frutos de transgressão do direito e a violência (Cf. Is 5,7).
Em vista da infidelidade de Israel, Jesus se apresenta como a verdadeira videira, capaz de produzir os frutos esperados: de direito e de justiça. Ele é autêntico.
O Pai é apresentado por Jesus como o agricultor que cuida da vinha para que ela produza bons frutos. Ele deseja instaurar na terra um projeto de liberdade e vida plena para todos. O cuidado do Pai se manifesta na imagem da poda, meio imprescindível para que a parreira produza em abundância bons frutos. A poda, neste sentido, não é sinônimo de provação, de punição ou dor, mas é graça.
A produção dos frutos depende do cuidado que tem o agricultor. Depende também da qualidade da videira, mas os frutos de justiça e de direito nascem dos ramos, dos membros da comunidade cristã. A palavra ramos é a segunda que mais aparece no nosso texto deste domingo: seis vezes.
Outra palavra que se destaca é fruto: aparece seis vezes no texto. Para alguns autores, os frutos são as boas obras; para outros, são a missão, o apostolado; e para outros os frutos são o amor, pois Jesus afirma: “nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). Para produzir abundantes frutos, os discípulos devem escutar e aderir à Palavra de Jesus e permanecer nele.
A palavra que aparece com o maior destaque é permanecer: 8 vezes se repete essa palavra no Evangelho de hoje. Significa estar ligado a Jesus Cristo como seu discípulo, amá-lo acima de tudo e alimentar-se desse amor.
A nossa fé é marcada pelo encontro com uma pessoa: a pessoa de Jesus Cristo. Ela não se reduz a um elenco de preceitos, a um conjunto de doutrinas, mas tem sua força nesse encontro com Jesus Cristo, que dá um sentido novo à nossa história. Nele encontramos a razão da nossa vida: na sua palavra, no seu projeto, no seu amor. Também encontramos a motivação para dar sentido à vida dos outros e para transformar as nossas relações. Permanecer significa estar em Jesus e, a partir desse encontro com Ele, alargar o nosso horizonte.
O convite dirigido por Jesus a permanecer nele e a produzir frutos é desafiador na nossa cultura, marcada pelo transitório, pelas rápidas transformações. O Documento de Aparecida diz que vivemos uma mudança de época. Parece que as coisas estão fora do lugar. O que antes servia para explicar o mundo já não resolve. Acontecem coisas que nunca pensávamos que fosse acontecer. Não conseguimos responder a muitas questões e, quando encontramos algumas respostas, mudam as perguntas. As transformações ocorrem com muita rapidez, os critérios de valores mudam. Por isso a dificuldade em permanecer, em criar relações estáveis. As relações se rompem com facilidade.
Claro que devemos mudar para melhor, aprofundar mais a nossa fé, amadurecer, mas permanecendo fiéis a Jesus Cristo, ao seu projeto de vida, aos seus valores. Dom Helder Câmara dizia: “é graça divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca”. Também recordava que para permanecer o mesmo é preciso mudar muito.
A outra dificuldade é produzir frutos de amor. A intolerância é uma marca forte na cultura atual. O nosso subcontinente latino-americano e caribenho tem o maior número de católicos do mundo, mas também somos a região com a maior marca de injustiça social, de corrupção, de violência, de desonestidade. Que frutos estão produzindo muitos cristãos? Lamentavelmente, alguns produzem frutos de violência, frutos de intolerância; infelizmente ainda fazem isso em nome da sua pseudo fé. Chegam a agredir, em nome da defesa de uma doutrina, aquele que pensa diferente, que crê diferente, que tem opções diferentes. Jesus Cristo nos pediu o amor: não somente entre nós que cremos nele, mas até pelos nossos inimigos.
Neste domingo recordamos os sete anos da Páscoa de Dom Tomás Balduíno. Rendemos graças ao bom Deus pelos 31 anos do seu pastoreio em nossa Diocese. Ele permaneceu na escola de Jesus. Sua vida foi marcada pela defesa dos direitos humanos, tão desrespeitados na nossa pátria, sobretudo os dos povos indígenas e dos trabalhadores sem terra. Que ele interceda por aqueles que tanto amou e que continuam sendo espoliados nos seus direitos. Que também inspire outros profetas na defesa dos direitos dos povos indígenas e dos sem terra.
Permaneçamos na escola de Jesus Cristo! Nele encontremos o sentido para a nossa vida e nele busquemos também a razão para produzir frutos amorosos, que marquem a nossa vida e a vida da nossa sociedade.
Deixo o meu abraço a você e a sua família e desejo-lhes uma semana feliz.

*Bispo de Goiás-GO

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Permanecer em Jesus Cristo para produzir bons frutos

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