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 Padre Geovane Saraiva*

Na liturgia da Semana Santa, o Cristo na cruz, desfigurado e sem aparência, abre-nos um novo caminho, numa reflexão solidária, a partir do rosto do irmão, na grande maioria dos desfigurados. Sim, faz-se necessário refletir as vozes de prantos e lamentos que já não mais se ouvirão, igualmente os clamores angustiantes, os quais cessarão (cf. Is 65, 17s). A profecia de Isaías, na sua forma estimulante, ou exaustiva, aponta para a felicidade, com novos tempos – messiânicos – no sonho de uma realidade plenamente reconciliada e pacificada em Deus, sendo prenúncio da mais completa simetria e sintonia entre o velho e o novo, com Deus, o mundo e seu povo: “…novas todas as coisas”.

É a grande novidade em Jesus de Nazaré, o Filho amado do Pai, que, pelo seu anúncio e sua própria voz, traz a esperança da promessa, jubilosa e alegre, para todo o povo (cf. Lc 2, 10). A lógica salvífica da fé vai ao encontro da humanidade, mas no sentido de antever em Cristo o homem novo, na disposição e no empenho consciente do seu próprio protagonismo, compromissado com um mundo mais inclusivo, na confiança expectante de que Deus enxugará toda a lágrima dos olhos humanos, pois nunca mais haverá nem morte, nem luto, nem clamor; nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas passaram (Ap 21, 4).

A face do Cristo desfigurado quer ir além do rosto humano, quer um coração humano modelado, num rosto alegre, feliz e transfigurado, já aqui neste mundo, reflexo de uma realidade mais de acordo com o desígnio, ou propósito, de Deus. É evidente que nunca se pode deixar de ver no rosto o cansaço, a dor, a aflição, o júbilo, a severidade e a dureza. A inspiração e o conselho são para convencer de que Cristo, com seu rosto desfigurado, se torna visível à imagem de Deus. Esse rosto revelador da glória divina, no entanto, foi alvo do escárnio dos homens, como nos assegura o profeta Isaías: “Ofereci (…) as faces aos que me arrancavam as barbas, não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros”.

No mundo em pandemia, com a Covid-19 desfigurando e matando criaturas humanas em número elevadíssimo, acreditamos que as vacinas nos oferecem proteção, sim, contra esse vírus nocivo, impiedoso e letal. Cristo, porém, com seu rosto sem aparência, quer ir muito além; quer nos colocar diante de males da sociedade e do mundo: apatia, negligência, desigualdade, indiferença, insensibilidade. Quer todos diante do desafio maior, considerando a realidade, nos seus sinais de vulnerabilidade, sobretudo nos que surgirem com poder devastador, sendo caos social, à luz da ética, por um mundo mais inclusivo, na busca dos bons costumes e dos princípios morais.

Estamos todos no mesmo barco, o do mesmo Deus que fez brilhar a luz em meio às trevas, não prescindindo do antagonismo entre ricos e pobres, muito claro e mesmo acintoso, no mundo que se distancia da proposta da justiça, da paz e da dignidade. Que se possa perceber o rosto da humanidade querendo dialogar, contendo nos olhos a fé e a esperança para ver o irmão, mesmo desfigurado, face a face. Todos por vacina, sim, para não obstaculizar, barbarizar e flagelar a vida e a própria história! Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, Blogueiro, Escritor e integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

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Rosto desfigurado de Cristo

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