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Será que sabemos o que significa uma Europa Laica? Recentemente, interpelaram-me com alguma indignação pelo fato do Papa Francisco ter expressado o sonho de ver uma «Europa saudavelmente laica». A indignação provinha do sentimento de falta de ligação entre uma Europa laica e a missão da Igreja de anunciar Cristo, e trabalharmos para um mundo cristão que viva as Suas palavras. Esse sentimento talvez proviesse da leitura de uma notícia sintética publicada na Rádio Renascença (RR). Quando a li, senti que o Papa desejava ver a Fratelli Tutti em ato, mas senti também a necessidade de ir à fonte, algo que precisamos de aprender a fazer.

Uma vez li nas notícias que o Papa João Paulo II havia admitido a hipótese das relações sexuais em pessoas com deficiência mental acontecerem fora de um contexto matrimonial. Achei aquilo tão estranho que fui à fonte e, de fato, não era isso que o Papa dizia, mas reconheço ser preciso conhecer melhor sobre o pensamento do Papa João Paulo II, como a sua Teologia do Corpo, mas entender a amplitude das suas palavras e evitar a má interpretação. Os fluxos de informação são tantos que me parece essencial, hoje, saber aprender a ir sempre à fonte, e não nos ficarmos somente pela notícia.

No passado dia 22 de outubro, o Papa Francisco escreveu uma carta ao Cardeal Pietro Parolin por ocasião do 40º aniversário da Comissão dos Episcopados da União Europeia (COMECE), do 50º aniversário das relações diplomáticas entre a Santa Sé e a União Europeia e do 50º aniversário da presença da Santa Sé como Observador Permanente no Conselho da Europa. De facto, quase no final, o Papa afirma que sonha com — «uma Europa saudavelmente laica, onde Deus e César apareçam distintos, mas não contrapostos.» Como pode esta frase levar alguém a pensar que o Papa estaria a desprezar o anúncio de Cristo? Talvez valha a pena referir que existem outros sonhos nesta carta antes de chegar a este.

Os sonhos surgem de uma questão que o Papa se coloca — «que Europa sonhamos para o futuro?» E depois, sonha. E sonha com:

  • uma Europa amiga da pessoa e das pessoas;
  • uma Europa que seja uma família e uma comunidade;
  • uma Europa solidária e generosa (e reflete com maior profundidade sobre o que significa ser solidário);
  • e, por fim, uma Europa saudavelmente laica.

O anúncio de Cristo não é uma imposição para os cristãos porque esse deveria acontecer com a sua própria vida. Por vezes, alguns cristãos focam-se tanto na batalha ideológica que se esquecem dos feridos que jazem moribundos pelo campo de batalha, quer de um lado, quer do outro.

Trabalhar para um mundo cristão implica acolher todas as pessoas, independentemente das suas convicções. Não é essa a experiência do Bom Samaritano, parábola base de uma boa parte da Fratelli Tutti? Uma impressão que recebi de uma pessoa que leu o que escrevi para o 7Margens falava de como nos passa ao lado a visão de um Jesus rebelde quando ousa contar uma parábola como a do Bom Samaritano. O sacerdote e o levita representavam as pessoas da hierarquia religiosa daquele tempo, pelo que, atribuir-lhes uma atitude de desprezo pelo outro, e elevando a atitude do samaritano, acaba por ser um apelo (rebelde) ao exemplo do leigo.

A leitura que faço da Europa (saudavelmente) Laica do Papa Francisco é a de uma “Europa dos Leigos.” Com os sacerdotes, e bispos, construímos uma comunidade cristã cuja atitude permanente de serviço, gratidão e amor, deveria ser suficiente para anunciar Cristo com os gestos, para além das palavras. Depois de um abraço, podemos dizer o que quisermos, porque sabemos que o outro reconhece ser respeitado naquilo que acredita. Mas uma compreensão mais abrangente e profunda da intenção do Papa Francisco só é possível se formos à fonte. Isto é, lermos o texto original que inspirou a notícia (algo que a RR não colocou e senti falta).

O anúncio de Cristo passa por reconhecer a riqueza da diferença na experiência religiosa de cada pessoa. Na Europa existem experiências diferentes e seria proselitismo considerar qualquer uma melhor do que qualquer outra. A ideia de que o outro só é salvo se for cristão diminui em muito a mensagem do Evangelho. Na parábola do Bom Samaritano, Jesus mostra-nos como é o gesto de amor para com os feridos que testemunha o amor do Pai por cada um.

Qual a leitura a fazer a partir da indignação de quem acha que o Papa renuncia ao anúncio de Cristo quando sonha com uma “Europa saudavelmente laica”? Será que a eficácia do anúncio se mede pelos números? Será isso baixar os braços na batalha pelo reconhecimento das raízes cristãs da Europa? Ou, com esse tipo de preocupações, estaremos a colocar de lado o essencial da mensagem do Evangelho?

O número que lhe atribuiu o exército alemão era 16670 quando Maximiliano Kolbe foi enviado para Auschwitz, a 28 de maio de 1941. No final de julho desse ano, um prisioneiro escapa e para dar o exemplo aos restantes, os SS escolheram 10 homens para os matar à fome num bunker subterrâneo. Entre esses homens estava Franciszek Gajowniczek, um polaco que grita pela sua mulher e filhos. O P. Maximiliano oferece-se para ocupar o seu lugar.

Por duas semanas, estes homens foram desprivados de alimento e água. Do bunker ouviam-se orações e cânticos, cada vez mais fracos, até restar apenas uma voz, a do P. Kolbe. Os militares alemães queria vagar o bunker e aproximaram-se do P. Kolbe com uma seringa contendo fenol para o golpe final. Uma testemunha afirmou que o P. Kolbe estendeu o seu braço. Do silêncio do gesto se escreviam as palavras — «não são vocês que me tiram a vida, mas sou eu que a dou.» Não há maior anúncio de Cristo do que testemunhá-Lo com a nossa própria vida. É essa a fonte da mais pura coerência, onde os gestos falam mais alto do que as palavras.

Fontes

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt

Autor: Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), 

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SABER APRENDER – A ir à fonte

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